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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

“Se não servir, não tem problema, nós mandamos ajustar!”

O vestido era lindo e era modelo único, mas infelizmente, não serviu. Tentei imaginar que ele ficaria bom mesmo assim, depois ponderei:  era muito caro, boa parte do meu salário do mês eu pagaria em um vestido que definitivamente: não era o meu número.


A vendedora comovida pela comissão foi solícita e me disse: “Se não servir, não tem problema, nós mandamos ajustar!”, então explicou que a costureira era ótima e que eu não precisaria pagar pelo ajuste, seria uma cortesia. Fui cautelosa, agradeci a oferta, mas imediatamente declinei do meu objeto de desejo.

Não sei porquê, mas arrumá-lo me daria uma sensação ruim, como se tudo aquilo que precisasse ser arrumado assim, desde o início, fosse virar mais um esqueleto para guardar no armário.

Depois pensei em todas as relações que eu tentei fazer dar certo e de todas as nuances românticas que eu dei a pessoas, apenas para que elas coubessem nos meus sonhos e ideais de novela mexicana.

Desde o início sabemos quando uma relação amorosa está fadada ao fracasso ou a doença mental, mesmo assim, nesse caso acreditamos no argumento da vendedora do vestido: “Se não servir, não tem problema, nós mandamos ajustar!”.

Acontece que começar remendando alguém para que sirva ou tentando se adequar ao tamanho ideal é um esforço que fazemos muito cedo, por impulso, sem nem ao certo saber se vale à pena, sem conhecer o outro e pior, sem saber se a pessoa em questão está esperando qualquer atitude.

Amamos vestidos, mas quando eles caem bem, se for pra mandar ajustar, fica sem graça, deveríamos ser assim com nossos relacionamentos: começou tendo que consertar, pense no quanto do seu tempo será investido e se esse preço não comprometerá o orçamento mais importante que você tem: sua vida! 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O Ser e o Plástico


  • O SER E O PLÁSTICO

    Parada no sinal, desconectada da mesmice do mundo exterior, absorta em pensamentos sóbrios, uma imagem da rua me desperta para fora: um mendigo (ou o que o meu preconceito julgou ser um mendigo) atravessa a faixa, puxando cuidadosamente por uma cordinha um cão feito de garrafas plásticas recicladas. Ele tenta não machucar seu amigo: as calçadas não são adaptadas, o que exige do homem um zelo maternal, a fim de mantê-lo sem nenhum amassado.

    No primeiro momento, achei muita graça: “Que coisa mais insana”, pensei. Claro, como não seria diferente do mesmo pensamento que acomete todos aqueles que se julgam “normais” e que estão muito satisfeitos por fazerem parte dessa bolha fictícia do cotidiano.

    Esse conforto de ser como todo mundo sempre me traz em seguida uma náusea, rejeição por fazer parte da moldura ideal e, consequentemente, uma fascinação curiosa pelo esquisito. Muitas vezes, já estive flertando com aquilo que choca as pessoas de uma forma geral.

    Pensei melhor, então, sobre o mendigo e seu fiel cão de garrafas pet. Comparei essa cena a muitas que vejo, de pessoas que se julgam extremamente corretas e caçam a normalidade com garras, mente e cartões de crédito, para serem iguais a qualquer custo.

    O que ele estava fazendo? Nada mais que buscando uma companhia por medo da solidão, se rodeando de algo sem vida, plástico, ao mesmo tempo que submisso e constante. Um cão de plástico não foge, não morde, não sai por aí atrás de um belo filé ou de uma cadelinha com pelo macio.

    E como agem tantas vezes os “prudentes” e sãos? Buscam relações ilusórias para não morrer de tédio e superficiais para não ter que suportar o risco de uma perda após se entregarem a sentimentos mais profundos.

    Nós e o mendigo já sacamos que envolver-se com as vidas alheias pode ser perigoso, mais até do que estarmos presos e esquecidos em um quarto revestido de espelhos. E quantos por aí preferem relações feitas de garrafas recicladas e uma natureza-morta como companheira para escapar de si e para não enfrentar o outro real?

    O sinal abre. Lamento as calçadas mais uma vez... que não são adaptadas nem para o cachorro de garrafas pet do mendigo. Sigo! E minha revolta não dura mais que um suspiro!

    Publicado em Jornal Anotícia em 28/11/2012
    http://www.clicrbs.com.br/anoticia/jsp/default2.jspf=2&local=18&source=a3962727.xml&template=4191.dwt&edition=20880&section=1186