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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Viva nos padrões das revistas e seja "feliz"!


  • Você tem que ser magra, não pode comer maionese de jeito nenhum. Não basta ser magra, não pode ter celulite e estrias e ainda tem de malhar: todo dia. Mas se for muito magra não é bom, porque tem que ter bunda e peito. Ah, e eles têm de ser proporcionais. As unhas têm de estar sempre bem feitas e o cabelo, bem tratado. Então tire um tempo pra malhar, arrumar o cabelo, fazer a unha e limpeza de pele, sempre!

    Você tem que ser simpática e bem-humorada. Dane-se que, involuntariamente, seu corpo tenha explosões de hormônio. Continue sorrindo, fazendo piadas e achando graça da vida. Você tem de ser positiva também, nada pode te abater. Incêndio, doença, morte etc. Porque você também tem de ser muito forte... mas cuidado! Você tem de ser feminina, ou seja, precisa ser um pouco forte, um pouco feliz, muito equilibrada, mas tem de parecer uma florzinha do campo... Isso não inclui falar palavrão, xingar pessoas, subir na faixa, passar no sinal amarelo... Trate todos bem, isso inclui ex-namoradas, amigos do namorado, babacas insuportáveis que te diminuem. Porque uma mulher de verdade é da paz, não faz escândalo, não reclama, não explode e gosta de todos independentemente de qualquer coisa.

    Você tem que ser independente, ganhar seu próprio dinheiro, manter sua autoestima elevada, pagar suas contas, guardar dinheiro, ser formada, ser feliz na profissão, já que a mulher de verdade não erra nas escolhas e só vê o lado bom da vida!

    Ah... aprenda a cozinhar, pois isso é muito importante para o mundo, já que no fundo todos acreditam que você não nasceu para ser nada além de uma cozinheira doméstica. Seja comedida, não use roupas apertadas, nem curtas. Fale pouco e baixo, evite ambientes de pessoas desestruturadas! Enfim, aprenda a ser uma dona de casa, ao mesmo tempo em que faz faculdade, trabalha, faz academia, unha, cabelo etc.

    Não demonstre que você quer ter uma família, mas também não demonstre que você quer ser solteira para sempre. Não tome a iniciativa, mas não ignore. Não perca a esperança, mas não tenha ilusões. Seja natural, mas não seja demais. Não crie expectativas, mas não saia por aí ficando com um toda semana... Ou seja: conheça alguém, sente e espere, como uma dama, as semanas para ele decidir se você tem todos os milhares de atributos ou se só quer transar mesmo.

    Coma comidas naturais, depile-se sempre, seja carinhosa sem ser grudenta. Ah... seja sexy, mas na medida certa. Não pode parecer, tem que às vezes ser, mas não pode demonstrar que é, aí seja uma atleta na cama, faça tudo... Só que depois, vista uma roupa decente e vá ser uma pessoa séria... Esteja sempre com vontade, disposta, perfumada e tenha orgasmos múltiplos.

    Além de ser magra, séria (mas não na cama), sarada, gostosa, independente (mas frágil), indisponível, formada, feliz, equilibrada, você ainda tem que saber conversar sobre todos os assuntos, ou seja, ser culta, para que seja agradável sua companhia...

    Os amigos dele têm que gostar de você, a família também, e você não pode precisar dele para nada, tem de ser indisponível, mas não pode ser fresca, não pode ser enjoada. Mas tem de ser criteriosa, você não pode cobrar nada e tem que entender que as pessoas mudam de ideia e, muitas vezes, não estão preparadas, mesmo que tenham dito totalmente o contrário há um dia.

    Por Janaina Lübke - Publicado em Crônicas do Jornal Anotícia dia 09/06/2012

O Atropelamento


  • Quando estava saindo de casa, assisti a uma cena indigesta: um carro atropelou um pequeno cão que saboreava a liberdade de romper o portão e alçar outros caminhos. Parei ao ouvir os gritos do bichinho. O dono do carro também parou imediatamente. Saltou do carro com uma rapidez que me comoveu. Observei a cena.

    Como era de se esperar por quem ama “carros”, foi ao encontro... da parte frontal do veículo; e após verificar que não estava danificado, entrou na sua máquina e acelerou. Ora, quem se lembraria de um cão, não é mesmo? E o cão ainda agonizava e seus olhos pediam salvação.Nessa hora, pensei que, quem sabe um dia a (in)comunicação homem/bem de consumo supere todas as barreiras da comunicação do homem com a natureza e com outros homens. Outros talvez serão como aquele cão, passaremos a vê-los como o vê o dono do carro. Entraremos numa introspecção consumista ao ponto de acharmos que um arranhão no carro é mais importante que um ser vivo.Mais desesperador é saber que convivo com vários desses donos de carro e que as coisas tomaram lugar de animais. Só nos resta a comoção, que é a pior e mais contemporânea forma de alienação que o homem criou para enganar a si mesmo.

    Por Janaina Lübke em Jornal Anotícia - 04/06/2010

sábado, 17 de novembro de 2012

Vazilidade


Páginas em branco,
parque sem criança,
casa sem pintura
e eu passando com o tempo
Tu não me celebras nem em verso nem em prosa
E passa com o tempo
Tento não repetir as velhas receitas
De esperar, de consumir, de explodir
Tento não esperar
Mas vendo-te, tão sereno, tão forte
Luto em vão, no escuro e sem armas
Pelo que temo que pode ser
Noites perdidas de sono não me abalam tanto
Poderia estar cega agora
Mesmo assim veria teus olhos e teu sorriso
Claro, alheio, honesto, verdadeiro
Precisamos de você, eu e a solidão
Sempre e não só quando o silêncio nos comunica.

Notívaga


A noite pra mim é um tédio e uma delícia... o silêncio velado pela escuridão me acalma, me acompanha, faz parte de mim... eu sou parte desta escuridão, sou muito mais silêncio. É no escuro que realmente me  encontro, encontro meus sonhos, meus ideais, o tédio é a insônia, que me persegue fiel... estás em meu sonho dia após dia... a cada minuto do tic-tac do relógio... tic-tac...cada vez mais perto... você está vindo... vem chegando... nos comunicamos num misto de medo e desejo... o peso das mãos... a respiração... eu posso sentir... esse fardo me alivia... uma contradição louca... uma imensidão de sentidos sem sons...sono!

Reação a televisão: Bangladesh

Crianças de Bangladesh
Adultos tão pequenos
Alguns nem tem dois anos
Mergulhados numa lama engomada
Que não solta
Não deixa voar
Quem não está lá, está cego
E eu aqui sou tão pequena
Tão frágil
E eles ainda sorriem
Mas ninguém os ensinou a sonhar
Assistimos perplexos
Ou mudamos de canal
Estamos cegos mesmo
Nem olhamos para o lado
Muito menos para uma realidade
Dentro de uma tela
E eles nem esperam
Porque quem espera tem esperança
E eles só tem pedras nas mãos!

Me contando sem cortes


Há muito tempo, venho me perguntando
Do que sou feita?
Às vezes pareço só uma insônia, um transtorno, um avesso de tudo
Outras sou tão normal, sonhadora, lúdica, infantil
Então viro uma fera, com pressa, com gana, ardendo em gelo e chamas
Sou tantas porque não consigo ser nenhuma
Sou uma indefinição
Contradigo a minha contradição
Por isso nem durmo, nem descanso
Procuro em mim ser algo
Mas porquê preciso ser alguém:
Definido, pronto, completo
No fundo, olhando pro céu, tão infindo
Quero ser como ele:
Para sempre!

Vaga esperança!


Espero teus sons, a fala mansa, o riso descontente
E esse teu olhar cheio de melancolia
Que me vê como sou: desajeitada!
Preciso da tua imagem, agora!
Pra não explodir um prédio
Pra não por fogo nas calçadas
Distante: te assisto!
Sou aquela da arquibancada.

Um grande amor de 10 minutos

Ela vinha do trabalho distraída e cansada: por ela e pelo mundo. Cheia da vida tão comum: ela se achava tão especial! Mas ultimamente via no resultado do trabalho, no cotidiano e no amor, que era mais igual aos outros do que até então tentava parecer ser. No fundo sempre soube...

Ele vinha de um encontro, também exaurido de esperas, os olhos dele tinham uma esperança - ela viu isso- mas até então ele não tinha se encontrado. Entre as farpas que a vida de um homem generoso o fazia engolir, todos os dias, e os seus amores fracassados ele continuava acreditando no amor e nas pessoas mais do que em si próprio...

Ela pensava muito, e constatava dia após dia que a felicidade é algo que não existe, pois esta palavra nada tinha de concreta e ela não queria mais viver de ilusões. Vivia desconcertada entre o regime de horas que era obrigada a trabalhar - trabalhava muito e nos últimos dias este era o seu único objetivo-  mesmo que nem tivesse ideia de que agia assim porque nada de mais interessante acontecia há muito em sua vida....

Ele então era músico durante a noite, e sonhava em viver de notas musicais e melodias, escrevia letras e fazia arranjos, que não tinha coragem de mostrar, sempre esperava algo mais, uma letra melhor, uma melodia mais original, enquanto isso trabalhava como professor, dava aulas de história, sonhava em ser herói, como tantos daqueles que povoavam seu imaginário de artista...

Ela amava literatura e pintura, as palavras e as cores é que mandavam na sua alma, no meio de tantas pessoas que talvez quisessem ser um pouco como ela e outros que ansiavam por atenção, ela sempre se sentiu sozinha, trabalhava tirando cópias durante o dia e estudava para ser “alguém” (já que o mundo classifica assim as pessoas)...

Ele saia de casa todos os dias com esperança, ela – a esperança- saia pelos olhos e tomava todo ambiente, mas a maioria das pessoas não a reconhecia, já que ninguém tem mais tempo para olhar nos olhos dos outros, ele tinha 33. Casado e divorciado há dois anos, se achava um fracassado no romance, pois sempre que foi amado não pôde amar, por não entender muito bem esse tipo de amor que sufoca o que se é para esperar em troca algo que não se pode dar.

Ela nunca tinha sido amada, e depois de fazer 25 é que tinha visto que tudo que tinha ouvido dos homens era por interesse no seu corpo e que ninguém, absolutamente ninguém até hoje a conheceu, fora o seu corpo todo resto estava intacto, inexplorado, ninguém tinha chegado nem perto da sua alma. Ela se sentia culpada, tinha medo de perder o controle por isso não se entregava a ninguém...

Ele já tinha tentado viver o amor, teve vários romances, mas sentia que por uma razão que desconhecia dizia e os outros entendiam o contrário, assim nunca tinha amado ninguém porque ninguém sabia ver nele o que ele realmente era e sim interpretações fantasiosas daquilo que queriam que ele fosse.

Ela já tinha desistido desse amor (ou acreditava que tinha) e entre conversar com Machado de Assis e ouvir Chico Buarque, ela pensava em criar alternativas para que a vida afora não a entediasse tanto, não sabia se se isolava do mundo com as tintas e os livros ou se enfrentava a hipocrisia de viver em sociedade...

Ele ainda pensava em amar, queria ser descoberto, queria perder o ar e sair do chão, mas se achava desastrado e azarado com as mulheres, queria uma mulher especial, mas tinha uma capacidade enorme de atrair mulheres comuns, daquelas que fazem de revistas de moda seu catecismo...

Ela estava com medo, tão jovem e já não tinha mais certeza de seus objetivos, não sonhava em ser mãe e nem ser uma grande profissional, estava estagnada em um mundo que tinha criado dentro dela e que não conseguia sair...

Ele queria alguém sensível, com quem pudesse conversar sobre música e sobre livros sem parecer chato ou entediante, alguém que o entendesse até no silêncio, alguém para proteger e para amar sem se preocupar com fórmulas de conquista e nem ter que premeditar palavras e comentários...

Ela pensava que só se apaixonaria por alguém que fosse simples e forte, que dominasse a situação sem dizer nada, alguém que a levasse com ele para a paz, com o qual não precisasse ter que vestir uma máscara de super-mulher, alguém que visse sua fragilidade e quisesse transformá-la em amor...

Os dois queriam um ao outro, por toda a vida.

Nunca tinha a chance de se encontrarem, sempre se atrasavam e driblavam os planos do destino e ele era adiado, ela mergulhada em pensamentos e ele perdido no espaço dele mesmo, se cruzavam todos os dias mas não se viam até que...

Sentaram-se lado a lado para esperar o trem, ele chegou primeiro e pode vê-la caminhando na sua direção, a achou muito atraente, olhou seu corpo e seu rosto, seus cabelos compridos e pensou que talvez fosse ela, mas pensou melhor e imaginou que ela já poderia ser casada, ou comprometida.

Ela só agora, depois de sentar o notou, olhou que ele parecia sorrir para seus próprios pensamentos, e viu seus olhos, olhos vivos e honestos, que brilhavam, e soube que ele estava pensando nela, ela pensou em sorrir para ele, mas ficou com medo de parecer louca.

Ele olhava para frente, mas sorria com o canto da boca.

Ali, os dois dialogaram durante minutos, sem que uma palavra ousasse sair das bocas e foram interrompidos pelo trem que acabara de chegar. Entraram então: ele primeiro.  E ela com esperança que ele dissesse algo parou ao lado dele. Dois caminhos prestes a ser uma rua.

Quando um olhava, o outro desviava os olhos em uma valsa antiga que aqueles olhos cúmplices insistiam em fazer. Ele pensava em falar. Ela esperava que ele falaria. Ele não teve coragem. Ela ficou com uma pontinha de raiva.

Ele então perguntou se ela não gostaria de sentar. Ela como já não esperava mais nenhuma atitude se surpreendeu e disse que não, pois já estava perto de casa. Ele então sentou-se, e ela desceu, e sorriu para ele do lado de fora.

Ela teve um lampejo de filme romântico e o imaginou e descer e correr até ela para dizer tudo que aqueles olhos carregavam de bom.

Ela se decepcionou e esqueceu aqueles minutos que a fizeram pensar no amor.

Ele do lado de dentro, pensou em sair, em correr para ela, mas se achou ridículo por pensar assim, nem a conhecia, ela poderia rir dele.

Cada um seguiu seu caminho...

Ela foi promovida. Mudou de cidade. Entre um caso e outro continua sozinha e se sentindo incompleta, sofrendo com a insensibilidade das pessoas e pensando que esse amor talvez seja mesmo ilusão de poeta...

Ele se casou por pura convenção social e teve um filho, sua solidão serviu para que ele ficasse cada vez mais inspirado, mas continua sem mostrar sua música para não parecer sonhador. Vive de algumas aulas de música, mas está fazendo um curso técnico, a pedido da esposa, assim pode ter um emprego com carteira assinada e dar uma vida mais confortável para sua família.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Sempre insensato o furacão,
não vem de brisa
não escolhe a estação.
Vai embora solitário para o céu
mas vira-volta em vento para passar bem devagar
se deleitar com a desolação
Festa faz como redemoinho
Desarrumando a bagunça deixada pelo chão.