"(...) No Tratado da correção do intelecto, Espinosa parte da experiência individual e intersubjetiva como experiência trágica: o sentimento de perder um bem desejado cada vez que se imagina tê-lo alcançado. Essa fuga interminável de bens que se consomem e nos consomem, divide os homens e os aliena porque imaginam a felicidade depositada em coisas que precisam ser possuídas com exclusividade. Essa perda incessante torna impossível não só a realização do desejo da felicidade, mas também a liberdade, lançando homens numa guerra sem freios pela posse dos objetos nos quais investiram sua esperança.(...)" in Espinosa: uma filosofia da liberdade, Marilena Chauí, p.38.
sábado, 27 de outubro de 2012
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
O perfume do amor nunca muda...
Ficamos os dois frente a frente,
e hoje, especialmente, nos abraçamos
como velhos conhecidos, ambos temos boas máscaras que nos protegem e cimentam o
amor lá embaixo, na calçada, sob os pés, ele já tentou romper o asfalto
diversas vezes, mas cada vez que isso acontece, aparece uma rachadura, que
começa a estremecer as estruturas, logo vem alguém, passa massa e remenda, pronto! Parece
novamente que não houve nada ali, sempre fica a gentileza plana e consertada.
Aquele perfume ficou,
testemunha de tantas idealizações, que agora na lembrança, parecem vivas, ainda
o vejo como o menino sem grana e idealista que encontrei na padaria há dez anos atrás, falando de
música e filosofia e ele ainda me vê como a menina que tentava disfarçar a
ingenuidade e insegurança com um discurso moderninho, com medo de falar alguma besteira imperdoável.
Nós sempre sacamos nossas
fraquezas, mas como natural do amor, fazíamos de conta que era só uma novela. Como natural dos nossos postos sérios de agora, cada um seguiu para sua casa, para pensar em como teria sido.
Sem Controle
Muito se discute sobre as qualidades
de uma pessoa e como aquela deverá ser melhor do esta, por certos parâmetros
subjetivos, como se fosse possível
prever o comportamento humano, esta atitude é típica da maioria dos homens e soa
como um paliativo para as suas aflições:
acreditarem que têm o controle de algo.
Não sei se é triste, ou se apenas
é, mas há uma doentia necessidade de prever o propósito do outro, bem como, o
próprio futuro e ações, como se estivesse absolutamente em suas mãos o que
acontece daqui até o próximo passo.
Essa necessidade é que permite os
grandes debates, julgamentos, preconceitos e a doce ilusão da premonição e da
magia que é: saber algo que ninguém sabe, antes de todos, fico pensando... como saber que alguém é louco
ou santo? Como saber se algo é justo ou injusto? E quem inventou os parâmetros?
Como julgar o que os outros
pensam se mal nos conhecemos e muitas vezes agimos totalmente contrários ao
nosso próprio discurso?
O fato é que a vida escapa das
nossas mãos e pretendemos em vão segurá-la com a falsa percepção de que temos, assim
como com as máquinas, um controle remoto, pronto para ser acionado a cada dissabor,
assim seguimos nos enganando e sofrendo pelo que poderia ter sido e não foi e
pelo medo do que não queremos que seja.
Aí residem todas as conjecturas e especulações... um homem "mal encarado" vem nessa direção... será que é ladrão? Bandido? Drogado? Vai me assaltar? Machucar? Deve ser uma malandro! Vagabundo! Ele passa e nem olha e segue para sua casa, depois de passar o dia construindo a casa de alguém que visitaremos algum dia.
Ele chega em casa troca de roupa e sai com sua família, vem alguém mal vestido em sua direção e ele pensa: será que é ladrão, drogado, bandido? Deve ser malando ou vagabundo! Sem se dar conta que uma hora é julgado e na hora seguinte se torna o próprio julgador.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Aprender e ensinar a partir...
Numa dessas conversas entre amigos cheguei a uma conclusão sobre a vida: ninguém nos ensinou a partir!
Fui ver no dicionário o significado da palavra, para garantir a clara intenção do que eu queria transcrever, este verbo tem vários significados: quebrar, desfragmentar, abandonar, seguir viagem, ir embora.
Então constatei indignada que não somos preparados para seguir viagem; de uma casa, de um amor, de um emprego, de um casamento, de um lugar... ou daquelas situações aconchegantes como ventre de mãe, que nos dá pouco espaço para abrir os braços, mas ao mesmo tempo o medo, de que a luz e a claridade do que está fora sejam insuportáveis.
Não nos ensinaram a abandonar planos, e quando o fazemos é quase uma obrigação sufocante, um esforço de alma oprimida por fatores externos por um belo "chute no traseiro" ou uma grande mágoa, que seja suficiente para garantir a esperança de que a mágoa da partida será menor.
Já tive que partir muitas vezes, mas partiria muito mais e sofreria muito menos se dentro de mim houvesse uma centelha de segurança de que há beleza em ir e há coragem de um caráter firme na ousadia de buscar o desconhecido.
Meu pai e meu irmão foram embora: cedo demais para mim - que não aprendi a partir - ... talvez se eu soubesse... eu os deixaria ir sem querer que eles ficassem.
Aliás, se aprendêssemos a seguir, entenderíamos melhor aqueles que partem e tudo ficaria mais fácil: menos lágrimas, crimes passionais, amores ao avesso, dependência, porém, é muito difícil entender quando alguém vai-se, pois não aprendemos ir.
Como entender que num mundo em que nada é estático ainda hajam lutas para que ele não gire, e muitas dessas, revestidas com o belo nome de amor? Fácil! Quem não aprendeu a partir vai encontrar nos argumentos mais sublimes a sua dose diária de conforto para ... ficar.
Publicado no Jornal Anotícia - em 16/02/2013
Fui ver no dicionário o significado da palavra, para garantir a clara intenção do que eu queria transcrever, este verbo tem vários significados: quebrar, desfragmentar, abandonar, seguir viagem, ir embora.
Então constatei indignada que não somos preparados para seguir viagem; de uma casa, de um amor, de um emprego, de um casamento, de um lugar... ou daquelas situações aconchegantes como ventre de mãe, que nos dá pouco espaço para abrir os braços, mas ao mesmo tempo o medo, de que a luz e a claridade do que está fora sejam insuportáveis.
Não nos ensinaram a abandonar planos, e quando o fazemos é quase uma obrigação sufocante, um esforço de alma oprimida por fatores externos por um belo "chute no traseiro" ou uma grande mágoa, que seja suficiente para garantir a esperança de que a mágoa da partida será menor.
Já tive que partir muitas vezes, mas partiria muito mais e sofreria muito menos se dentro de mim houvesse uma centelha de segurança de que há beleza em ir e há coragem de um caráter firme na ousadia de buscar o desconhecido.
Meu pai e meu irmão foram embora: cedo demais para mim - que não aprendi a partir - ... talvez se eu soubesse... eu os deixaria ir sem querer que eles ficassem.
Aliás, se aprendêssemos a seguir, entenderíamos melhor aqueles que partem e tudo ficaria mais fácil: menos lágrimas, crimes passionais, amores ao avesso, dependência, porém, é muito difícil entender quando alguém vai-se, pois não aprendemos ir.
Como entender que num mundo em que nada é estático ainda hajam lutas para que ele não gire, e muitas dessas, revestidas com o belo nome de amor? Fácil! Quem não aprendeu a partir vai encontrar nos argumentos mais sublimes a sua dose diária de conforto para ... ficar.
Publicado no Jornal Anotícia - em 16/02/2013
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