Casa da minha mãe... nada dela, onde será que ela está, olho para o céu, que me parece extraordinário em tons de lilás e laranja... penso quantos tons seriam... impossível gravar, tiro uma foto, mando para os meus amigos no whatsapp... espero que eles compreendam... volto para dentro da casa, os gatos miam e o pote está vazio... olho no lugar de sempre e só tem ração do cachorro... fico em dúvida... mas diante da insistência coloco um pouco para cada um... eles não comem e continuam a miar... penso que minha mãe pode ter saído exatamente para comprar a ração... pego um dos gatos no colo... ele odeia... penso em comer algo... geladeira vazia... coloco um ovo para cozinhar... enquanto isso na TV a notícia da morte de Mandela... tento vincular a peculiaridade do céu como uma homenagem à ele... tento lembrar de alguma frase dele... nada vem... conto dinheiro... esqueço de lavar a mão e como o pão... penso que não é tão bom comer ovo mas ao menos economizo o valor do jantar... decido vir para minha casa... penso de novo onde minha mãe pode estar... de novo admiro o céu... entro no carro e penso que eu não posso ser parada em uma blitz pois não paguei o documento do carro... lamento todas as multas que terei de pagar... me culpo pela minha dupla irresponsabilidade... e penso em colocar esse item na minha lista de mudanças para o ano novo... passo em frente a uma igreja... penso que talvez as pessoas estejam felizes lá... e como me faz falta não ter fé... paro no sinal e lembro de uma piada politicamente incorreta que um amigo me contou um dia antes e começo a rir compulsivamente... um pouco adiante vejo um homem revirando o lixo e penso de novo no Mandela... tento lembrar a frase dele... não consigo... volto para o horizonte e vejo novamente que o céu hoje está fora do comum... tento tirar uma foto e dirigir ao mesmo tempo... não consigo e não tenho coragem de parar para tirar a foto... penso no homem que estava no lixeiro e em mim... fico aliviada por não ser ele e culpada por me sentir melhor que ele... penso se sou feliz... e comparo com as vezes que pensei que os outros pensavam que eu era feliz... lembro de uma amiga que sinto saudade mas que não tenho mais contato pois sou desajeitada para alimentar relações duradouras... olho um cara correndo e se exercitando e me sinto culpada por só ter vontade de comer batata frita e ver filmes românticos... penso que deveria ter estudado mais, trabalhado mais, feito mais exercícios... ainda tento lembrar da tal frase... penso que quando chegar em casa vou colocar no Google e acho rapidinho... próximo de casa paro perto de uma antiga fábrica da Ford, agora abandonada, penso no capitalismo e em como o espaço poderia ser aproveitado para qualquer coisa... gosto da arquitetura do local e até das pichações eu gosto um pouco... lembro que se eu tivesse de cadeira de rodas não poderia andar naquelas calçadas... chego em casa e em um canal está reprisando um show do aniversário do Mandela... paro um pouco para ver pois a música diz: “Give hope Joanna...” que bela música!... o Obama fez um víder em homenagem a ele também e enfim transmite a frase que eu estava tentando lembrar... algo como você precisa sonhar, acreditar e agir... e assim como o Obama pensei em agradecê-lo por alguma coisa, mas não me achei digna o bastante para ser hipócrita, só por hoje.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
“Se não servir, não tem problema, nós mandamos ajustar!”
O vestido era lindo e era modelo
único, mas infelizmente, não serviu. Tentei imaginar que ele ficaria bom mesmo
assim, depois ponderei: era muito caro, boa
parte do meu salário do mês eu pagaria em um vestido que definitivamente: não
era o meu número.
A vendedora comovida pela
comissão foi solícita e me disse: “Se não servir, não tem problema, nós
mandamos ajustar!”, então explicou que a costureira era ótima e que eu não
precisaria pagar pelo ajuste, seria uma cortesia. Fui cautelosa, agradeci a oferta,
mas imediatamente declinei do meu objeto de desejo.
Não sei porquê, mas arrumá-lo me
daria uma sensação ruim, como se tudo aquilo que precisasse ser arrumado assim,
desde o início, fosse virar mais um esqueleto para guardar no armário.
Depois pensei em todas as
relações que eu tentei fazer dar certo e de todas as nuances românticas que eu
dei a pessoas, apenas para que elas coubessem nos meus sonhos e ideais de
novela mexicana.
Desde o início sabemos quando uma
relação amorosa está fadada ao fracasso ou a doença mental, mesmo assim, nesse
caso acreditamos no argumento da vendedora do vestido: “Se não servir, não tem
problema, nós mandamos ajustar!”.
Acontece que começar remendando
alguém para que sirva ou tentando se adequar ao tamanho ideal é um esforço que
fazemos muito cedo, por impulso, sem nem ao certo saber se vale à pena, sem
conhecer o outro e pior, sem saber se a pessoa em questão está esperando qualquer
atitude.
Amamos vestidos, mas quando eles
caem bem, se for pra mandar ajustar, fica sem graça, deveríamos ser assim com nossos
relacionamentos: começou tendo que consertar, pense no quanto do seu tempo será
investido e se esse preço não comprometerá o orçamento mais importante que você
tem: sua vida!
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
O Ser e o Plástico
O SER E O PLÁSTICO
Parada no sinal, desconectada da mesmice do mundo exterior, absorta em pensamentos sóbrios, uma imagem da rua me desperta para fora: um mendigo (ou o que o meu preconceito julgou ser um mendigo) atravessa a faixa, puxando cuidadosamente por uma cordinha um cão feito de garrafas plásticas recicladas. Ele tenta não machucar seu amigo: as calçadas não são adaptadas, o que exige do homem um zelo maternal, a fim de mantê-lo sem nenhum amassado.
No primeiro momento, achei muita graça: “Que coisa mais insana”, pensei. Claro, como não seria diferente do mesmo pensamento que acomete todos aqueles que se julgam “normais” e que estão muito satisfeitos por fazerem parte dessa bolha fictícia do cotidiano.
Esse conforto de ser como todo mundo sempre me traz em seguida uma náusea, rejeição por fazer parte da moldura ideal e, consequentemente, uma fascinação curiosa pelo esquisito. Muitas vezes, já estive flertando com aquilo que choca as pessoas de uma forma geral.
Pensei melhor, então, sobre o mendigo e seu fiel cão de garrafas pet. Comparei essa cena a muitas que vejo, de pessoas que se julgam extremamente corretas e caçam a normalidade com garras, mente e cartões de crédito, para serem iguais a qualquer custo.
O que ele estava fazendo? Nada mais que buscando uma companhia por medo da solidão, se rodeando de algo sem vida, plástico, ao mesmo tempo que submisso e constante. Um cão de plástico não foge, não morde, não sai por aí atrás de um belo filé ou de uma cadelinha com pelo macio.
E como agem tantas vezes os “prudentes” e sãos? Buscam relações ilusórias para não morrer de tédio e superficiais para não ter que suportar o risco de uma perda após se entregarem a sentimentos mais profundos.
Nós e o mendigo já sacamos que envolver-se com as vidas alheias pode ser perigoso, mais até do que estarmos presos e esquecidos em um quarto revestido de espelhos. E quantos por aí preferem relações feitas de garrafas recicladas e uma natureza-morta como companheira para escapar de si e para não enfrentar o outro real?
O sinal abre. Lamento as calçadas mais uma vez... que não são adaptadas nem para o cachorro de garrafas pet do mendigo. Sigo! E minha revolta não dura mais que um suspiro!
Publicado em Jornal Anotícia em 28/11/2012
http://www.clicrbs.com.br/anoticia/jsp/default2.jspf=2&local=18&source=a3962727.xml&template=4191.dwt&edition=20880§ion=1186
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