A densidade das palavras pode iniciar uma revolução?
Caso sim, eu gostaria de saber...
num canto de um quarto comprimida no canto de uma casa no canto de um pedaço de terra...
eu só faço escrever!
Uma caixa de catorze polegadas machada pelo tempo
Me mostra a fome, a desgraça, a tragédia, a morte, viagens ao mundo, o amor das estrelas....
Pessoas que eles querem que eu queira ser...
e eu só faço escrever!
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
Acordar...
Nem sempre é fácil começar a perceber que o lençol é áspero, que as frases são apenas de efeito e que temos que voltar para dentro de nós e encontrar a bondade que tanto almejamos no outro, enquanto ainda percebo o mal, ele existe só dentro de mim...
Microconto sobre relações amorosas
- Precisamos conversar, disse. Ela pensou em casamento. - Não “tô” feliz!, disse. Ela chorou. Ele olhou o relógio: muita pressa e pouca culpa. Soluços altos para ele ouvir. Ele correu para não se atrasar. Ela dormiu ouvindo Wando, abraçada com as flores de plástico que ganhara no último dia dos namorados.
Cartas não enviadas 6
Estes últimos dias tem sido como vagões fechados para mim, queria que soubesses de alguma maneira como podes me fazer tanta falta como agora. Tenho pensado muito em ti, sei que em vão, mas tu não vais embora, o te ver aos beijos com outra tive minhas aspirações arrasadas como uma pedra de gelo no deserto, não tenho ninguém que me ouça, o fio de Ariadne partiu-se, se é que ele existiu algum dia, e não posso te ligar e nem tentar te convencer. O vazio que esta falta me faz é muito maior do que todo meu ser, queria Ter sonhado, ou muitas vezes tenho desejado jamais Ter te conhecido pois a minha vida seria mais amena sem lembrar das músicas que te ouvia cantando, como as sereias que seduziam todos com seu canto. Ao menos se eu soubesse que tu também pensas em mim, que tu te arrependestes, mas de ti não sinto nem coisa alguma, sem sinais, penso que te escrevo e que os anjos transportem naquela linha que ultrapassa a razão minhas angústias, queria tanto saber uma maneira de colocar de volta num coração tudo que um dia ele sentiu, apagar da memória aqueles erros que fizeram algo que poderia ser muito maior e mais forte se esvaírem como uma barca furada, se ao menos eu soubesse que assim como eu, tu sentes minha falta, que apesar das demonstrações de indiferenças que tens me dado, tu também sentiu em algum momento que tudo poderia Ter sido melhor, sublime, escrevo aqui e tudo que eu queria é que como num sonho estas letras chegassem até ti, no teu coração, já que teu lado racional é muito afetado pelas ilusões do poder. Pensei Ter sido mais para ti, mas nada, não fui nada, a crueldade que tomou conta de ti mostrou-me que nem tudo é como eu penso, que as pessoas não tem e nem são obrigadas a terem o mesmo tratamento, a mesma disposição para comigo. Acordei para uma realidade diversa da que eu vivia, e ver-te nela tem me angustiada, porque na minha imaginária realidade de antes ninguém era tão ruim e indiferente aos sentimentos, tu me ajudastes a ver que as pessoas não são boas como eu e que isso não é nem surpresa, não deixa ninguém pasmo. Como eu tenho saudade daquele amor doce de antes, sem aquele olhar de ditador insensível, não consigo esquecer o último olhar que me destes, a frieza, a indiferença, um escárnio difícil de entender....
Cartas não enviadas 5
Adorado meu, sei que leste a última carta, outrora contentaria-me em apenas saber-te alguns segundos com o pensamento voltado a mim, mas encarecidamente peço-te agora mesma leitura e mais reflexão ao que venho neste papel – que se observares bem traz consigo reflexo de minhas duras penas- relatar-te:
....ele despertou hoje pior e em protesto a ti tentou despedaçar-se e não conseguiu, usou vários meios até perder a persistência, ficou muito decepcionado com os poetas que já falaram sobre coração partido, sentiu-se iludido ao constatar que ele na condição de coração tentou partir-se e não obteve êxito, quis com conhecimento de causa alertar os todos os românticos que como ele também acreditaram nessa máxima do romantismo, mas foi uma centelha que logo passou, o louco e faiscante amor que ele cultiva por ti ainda é o motivo mor de sua angústia e a tua alienação ao sentimento dele o seu maior penar.
De raiva, virou-se de costas, deixando-me por morrer, entupiu várias veias do meu debilitado corpo e o que me mantém viva é a esperança- companheira e amiga ilusória do amor-perfeito- que todo coração apaixonado guarda consigo apesar dos pesares.
Quando tudo está entupido e eu começo a passar mal, como mágica ele percebe algo de teu e vira-se para seguir teus sinais, então me dá uma trégua descongestionando as minhas veias, é assim que vivo, a rogar por tudo que faça o meu coração buscar-te.
Escrevo-te depois de acalmá-lo com Mozart, Bach e Bethoven e uma leitura de Shakespeare, mas ele está cada vez mais faminto e eu fraca, já que ele ainda passa o maior tempo virado de costas para a sua melancólica realidade.
Ajude-me, penso que um beijo teu transformaria a minha já tão ressequida existência, tenho sensação de que um beijo aquietaria meu coração, um beijo apenas...“vês que nem te peço amor”.
Jamais menos tua que agora,
Cartas não enviadas 4
De um local inóspito dentro de mim, “quatro paredes sólidas” e cinzas, uma pequena janela com grades, de agradável a leve brisa da alvorada que me envolve; dia daqueles em que penei por tua ausência; em Setembro, mês que acarinha com um ósculo de vento e um cálido abraço, num ano de grandes mergulhos ao fundo de mim.
Escrevo-te pelo descompasso do meu coração, que já é audível em som com velocidade da luz.... ora doido, ora desgraçado e bem menos contente, músculo que nada mais é - para os “civilizados” como nós- : o rádio transmissor da Divina Providência.
A razão por mais que lute contra, não consegue lidar com as perturbações dele, este insano tomou conta de mim e traiçoeiro controla meus anseios, desperto por ti, quer vingar-se do tempo que permaneceu mudo, já que eu furei com uma agulha sua língua, quando ele ainda era bem pequeno. O reneguei a ponto de suprimir seus conselhos.
E não me julgues tu, apenas desejei um dia ser igual a turba de idiotas que temem amar o perdido - em algum momento de nossa existência atípica, nós portadores da felicidade realista, em meio a tanta mediocridade acabamos nos questionando se há algo de errado e, ou por medo, descrédito, até por indignação colocamos um pé na rotina burra dos que trabalham, comem, dormem, falam, amam e vivem para serem iguais aos outros, que horror!-.
Ele, il corazòn, tem gritado muito, após perder a fé em ti, o coitado quer espalhar-se pela atmosfera, como o andrajo que se tornou por conseguinte minha imagem que mais parece uma marca d’água e em nada retrata a franca beleza de antes.
Pois tu, anjo falsificado de sedução, libertou-o deste cárcere privado e involuntário, curou-o a base de olhares serenos, comentários seguros, melodias e sons coloridos, como milagre de Santo fez com que ele despertasse e conseguisse falar tão alto aqui dentro que todas as vozes remanescentes calaram-se.
Malfadado destino para o pobre, já que de tanto querer o teu sem ter de ti o mesmo afeto deixou-se degredar para o país dos corações bandidos.
Quer ele aprender na marra o significado do amor - “grande palavra, faiscante e misteriosa, de onde a felicidade escorre como a água de uma taça muito cheia”-, me acusa, primeiro por tê-lo deixado calado, em seguida por deixar-lhe a tua mercê.
Histérico, passa horas repetindo que uma vez perdido a língua já tinha se acostumado à submissão, quer recuperar o que perdeu, quer dizer-me tudo que não pôde, tomou posse dos meus seis sentidos, de tão revoltado que está não ouve mais, ensurdeceu, entende tudo errado.
E tu, tirano, sumiste! Levaste contigo meu exército de sensações, que são teus criados, moro de aluguel dentro de mim, conquistaste parte por parte até chegar ao coração, que rendeu-se enfeitiçado com teu canto.
Me digas o que faço com este louco independente, que hoje só adormeceu por algum tempo depois de absorver três livros do Machado e sete Cd´s do Chico Buarque para suprir a falta que tu fazes a ele.
Me pergunto, te pergunto: quanto tempo terei que remediar? Responda-me tu: suponho eu que tua presença já deve ter enlouquecido muitos outros corações sem retorno vida afora, o que fazes com estes trapos? O que eu digo a ele quando o desvairado despertar?
Temo por ti, ele me domina, toda tua integridade está ameaçada e toda minha também, ele quer atingir-te. Não estou ameaçando-te, quem te fala aqui é a parte passível de mim... mas daqui a pouco ela perde o domínio... e...
Cartas não enviadas 3
À ti ... que tem sido minha melhor companhia: quando sim, minha alegria; quando não, minha inspiração...
....letras, melodias, declarações, adereços, gritos, euforia, tesão... sempre gostei de usar palavras para representar sensações e por ti quantas obras de arte fui capaz de fazer?!
Compus uma ópera, um blues, um samba-canção, uma sonata, e de tão belas, jamais as tornei públicas, num acesso de puro egoísmo, para que ninguém compartilhasse da mesma sensação...
Dancei sozinha, salsa, tango, valsa, no meio da pista lotada, toda vez que soube que em algum lugar do salão estavam teus olhos a me vigiar.
Escrevi um vasto acervo de poesia e prosa, textos e composições, objeto de inveja dos imortais das academias de letras, objeto da crítica positiva dos maiores entendedores de literatura do mundo e os assombrei todos, ao declarar aos quatro cantos que a única intenção daquela nobre obra era a tua admiração e julgamento, e que outras opiniões eram irrelevantes e não alteravam nenhum centímetro do meu estado de espírito, exceto a tua ...
E como nada adiantou para te conscientizar da dimensão e da magnitude dos meus sentimentos, como último suspiro do ser que se esforça para não perder a vida, percorri parlatórios e proferi os mais sublimes discursos já ouvidos, transcendi o lógico ao conseguir convencer à todos os povos um ideal único, a minha súplica por ti suscitou lutas pelo amor onde alcançou o som de minha voz e se propagou mais que praga, o mundo então perplexo de amor jamais foi o mesmo.
Como uma “pazzia d´amore” o “Leonismo Fantástico”, meu movimento para ti, tornou-se o catecismo do século, uma bibliografia imprescindível para filósofos, intelectuais, doutores e monges e despertou ainda a ânsia de leitura daqueles miseráveis analfabetos de senso, apenas para que acreditasses que eu era capaz de conquistar o mundo todo para te conquistar...
Sem sequer merecer alcançar a altura do teu peito, o que eu tinha eram tuas etéreas lembranças, sem pensar parti para contravenção me tornei bandida, ladra, louca, maldita e temida até pelo mais criminoso e poderoso dos malfeitores, fui capaz de atrocidades para provar o contrário do que a minha alma sonhadora sempre previu, que sem o amor do mais desejado dos seres não há luz, nem paz, nem melodia, não há inspiração, desmistificando e blasfemando minha própria obra.
Todo povo, assim como eu, também desistiu de ser, e eu numa busca incessante de ti, apoiada pelas forças do mal - que sempre se dispõem nestes momentos - te encontrei, e num rompante de ânsia, volúpia, angústia, te engoli inteiro, imaginei que assim nenhum outro ser seria capaz de conviver neste mundo com a tua alma através do corpo que eu acabava de engolir, fiquei cheia de ti, até que a tua alma conseguiu fugir pelo escuro dos meus olhos, ainda tinha o teu corpo inteiro, parte minha, mas para nada adiantava, já que tua alma continuou livre e como dádiva reservada aos grandes, ganhastes asas e voastes longe, e eu triste, feia de tão gorda, e não menos desacreditada pelo povo... morri... de indigestão...
Minha obra literária após minha lamentável morte serviu de base para todos os movimentos contemporâneos, e eu tornei-me um ícone de toda uma geração.
Tu cansaste de voar com tuas infindas asas, quiseste ser mortal novamente, procuraste uma alma sem expressão, um ente despersonalizado que fosse fisicamente parecido contigo, encontraste um advogado positivista, confrontando-te com aquela fraca alma de positivista tua nobreza de espírito venceu logo e os teus vôos pela terra ajudaram a te tornares o melhor advogado pois conhecias a fundo a vida que códigos e constituições jamais ensinaram aos outros infelizes que ainda acreditam que tudo de importante já foi escrito e deve ser seguido ipsis litteris.
Resolveste pela primeira vez ler com coração a minha obra literária, e naquele momento quiseste com fúria e arrependimento um momento para nós, chamaste meu nome, decoraste minhas palavras e como advogado reivindicaste para ti direitos autorais sobre a obra inspirada na tua alma, provaste com argumentos irrefutáveis as tuas razões, venceste a causa e passaste a vida a gastar aos tufos o meu dinheiro.
Quiseste ser escritor, já que não suportaste continuar vivendo no meio bitolado das leis, inconscientemente tentaste me superar mas jamais chegaste aos meus pés por não conseguires encontrar em outro ser a inspiração que encontrei em ti e que tu encontrarias apenas em mim se tivesses “ouvido de ouvir e olhos de enxergar”.
Resposta ao cientista sem tempo
Celebra a cada dia n´alma
a sabedoria que os livros te deram
mesmo ocultando de todos quais fabulosos métodos assim te fizeram
Para respirar: só um segundo,
escolha o em cores, aquele de quem pode ser dono do mundo
Vá e volte naquela fração de segundos para a tua indigente realidade.
Enquanto mastiga aquela fatia de comida mal mastigada
Para! E lembra de quem te quer bem: Filho, homem, amigo, irmão
E vê bem se há no mundo criatura tão amada
Quando na quietude da negra noite
No teu quarto estiveres deitado, cansado, pense com toda força do teu espírito
Em quem te faz, sob duras penas, ser assim desejado
E pensando, tenha certeza que o relógio do amor
é diferente dos outros, o espaço do amor não pode ser limitado
E não é o tempo dos homens que qualifica qual dos seres é o mais amado
E nós apesar das horas silenciosas,
da sofreguidão da ausência e do desalento,
só entenderemos ao amar... que para o amor não existe tempo!
Cartas não enviadas 2
As doces e amargas lembranças da infância vieram à tona com toda força, tomaram conta de mim hoje, meus olhos cheios de lágrimas e lábios secos produzem um sensação de mofo, sabe que hoje novamente tua lembrança ficou bem mais forte, lembrei daquele sentimento que tinha por um primo próximo e consegui ver claramente que era amor, amizade, brincadeira inocente de criança, uma ligação mental muito forte e como num paralelo cheguei a tua imagem, achava besteira quando ouvia dizer que coração doía, pensei sempre ser um artifício dos ultra-românticos, ou sou besta também ou estava enganada, meu coração tem doído realmente, e dói sempre quando penso em ti e não é exagero.
Acho que sonhei, pude então lembrei da minha infância, quando criança queria mudar o mundo, me sentia forte – e era- para enfrentar tudo e imaginava que seria um dia uma rainha, não era fantasia, era algo concreto, acreditava que podia, mas cresci com tudo e todos tentando me provar o contrário, que eu era comum e que jamais iria longe, convivi com a mediocridade de perto e acabei por achar que a única medíocre era eu, sufoquei praticamente toda sensatez que tinha e continuei convivendo com a mediocridade, acabei parte por incorporá-la e até aceitá-la como normal no meu próprio cotidiano, mas nunca deixei de ler, de ouvir músicas as quais só eu sentia, a pintar quadros que ninguém entedia e a ter idéias que nasciam e morriam dentro de mim, e eu pensava que estava errada, lembrava da minha infância e da grande pessoa que tinha sumido de mim.
Te conheci, e algo em mim mudou para sempre, “te celebro mas não me escutas”, pois eu te escutei, tu me fez acordar para uma realidade que já estava em mim sufocada pela mediocridade que me rodeava, a mesma sensibilidade que agonizava em mim era tão visível em ti que tive medo, era uma dimensão muito maior que me esperava, não soube lidar com o que a tua presença causava em mim, parte de mim lutou muito para continuar medíocre, não identifiquei que a tua presença era providencial, não soube retribuir, e ao me dar conta não consegui expressar que tu tinhas sido tão importante assim
me senti tão mais forte e capaz, aquela criança que estava novamente acordou e nunca mais vou deixá-la adormecer, graças a ti. (Julho/2005)
Cartas não enviadas
Em ti me guardo, sou hóspede estranha, não fui convidada, te invado, já quis tanto, quase explodi de querer e jamais consegui nada.
Me lanço sem alternativas a luxúria vazia das madrugadas que perdem-se junto a mim, também me perco e nem me procuro mais.
Tenho apenas uma espinha atravessada em minha garganta, uma trava no olho, um calo no pé e muita saudade.
Saudade do que jamais poderei ter ou talvez a palavra certa seja despeito, inveja perturbada de quem terá teus olhares admirados e teu abraço cansado, e tua voz sussurrada, cantada, de quem poderá velar teu sono, tuas angústias e teus desejos.
E eu que nunca fui de me conformar, não durmo bem, mas consigo dormir, ainda que menos que antes, hoje, senti muito mais falta de ti, talvez só hoje e amanhã eu passe todo dia sem lembrar, como já aconteceu, mas hoje eu passei pelos lugares em que costumava te ver, repeti os caminhos que muitas vezes passei ansiosa para chegar até ti, lembrei da angústia desesperada, do prazer que dói de tão bom e da falta de apetite depois que o telefone tocava, até sonhei... antes e depois fiquei sem sonhar, com ninguém, por muito tempo.
Tu foste em minha vida aquele único, que se perde ou que nunca se terá, como uma mãe que não vê o primeiro passo do filho, por não ter um fio para prender, por faltar um centímetro para ultrapassar.
Meus fantasmas agora tomam conta de minha vida, gritam o quanto sou inútil, eles não tem alma, nem consciência, nem lado, vagam noite e dia, sugando o sangue, o suor e o tempo, que não volta, não têm dia claro, nem feriado, mal sabem quais seus próprios objetivos e muito menos ainda qual o sentido desta vida insana, mas me levam com eles.
Sou uma ingrata com aquilo tudo que é meu, pois nunca lutei para ter, só penso, mas sinto tão mal por pensar, queria pertencer realmente a minha própria vida, com coração e alma, só o corpo participa de tudo, e todo o resto vaga num vazio que nem sei, há muito que tudo se desintegrou, queria ser de tudo que é meu, mas não sou, talvez amanhã passe, hoje escrevo de algum lugar que criei, fora de mim e nem quero voltar.
Não me sinto à vontade com o que é meu, é sempre nessa hora que tenho saudade, saudade de ti, que sempre trazia minha alma para dentro de mim, meu lamento persiste, só queria que soubesse que ninguém jamais conseguiu provocar esta sensação em mim.
(08/04/05)
E então: Felicidade?
O despertador, as buzinas, os
alarmes, vários sons e o rádio que busca uma estação com uma canção que parece
dar um recado, o cantor do outro lado diz tudo que você queria ouvir de alguém
que só oferece “ausências e cegueiras absolutas” como diria Cecília Meirelles,
concluo comigo mesma que quem buscou a música, como um acalanto, fui eu, e não
fui eu a escolhida por ela.
De um canto cabisbaixo do ser
surge a vontade de olhar acima do horizonte, observo o sol, a poeira, o asfalto,
os carros e as pessoas, que sempre me são muito complexas, cada um com a sua
pressa: de viver, de chegar, de amar; a maioria com uma pressa inerente e
hospitaleira que ficará lá até o enjôo, até o momento que as janelas da alma
possam de fato ver o asfalto, os carros, as outras pessoas com suas cores e
suas nuances mágicas e trágicas.
Vejo a felicidade em forma de amor,
escancarada nas mãos dadas de uma mãe com seu filho ou já velada pelo casal que passa, consumido
pela rotina de quem faz presença, mas não está presente, uns passam distraídos,
eu, e muita gente, somos esses os que esperam a felicidade que nunca vem: ou
por descrédito ou por erro na interpretação do que representa a palavra no seu
maior sentido.
Mas ainda posso ouvir o canto dos
pássaros, que não foram e nunca serão superados por qualquer melodia humana,
ainda me estarreço com a perfeição das formas individuais das folhas de cada
árvore do meu jardim e ainda não entendo como muitas pessoas não enxergam que
todo o teatro da humanidade é uma tentativa precária de imitar a natureza, com
sua estética única e incomparável.
O sol aquece e ofusca meus olhos
o que me dá um prazer insensato, estou viva e enxergo enfim, crianças brincam
num campo de areia, com traves imaginárias de chinelo, com uma bola gasta e
meio vazia, mas eu consigo sentir que ali sim deve estar a felicidade, é ela
que espreita, sempre habilidosa em sair de uma hora para outra sem deixar
bilhete.
Penso que se captasse esses
momentos felizes em um pedaço da memória fosse mais fácil viver, mas para mim
ela sempre foi uma sádica dissimulada, pois quando aparece faz com que eu pense
que jamais irá me deixar, e os tolos de tudo, como eu, só entendem quando o
vazio é a única companhia e o propósito não tem mais luz.
Quando ela vai ainda rouba os
sonhos, como se alguém tivesse composto uma bela melodia e esta fosse atribuída
a outro compositor e não houvesse possibilidade de comprovar a autoria, não
seria essa Senhora tão sagaz a ponto de fazer com que acreditasse que ela
existe, só para depois destruir a ilusão de que eu era algo maior do que de fato
sou e sempre serei?
Dentro da limitação de não
conseguir como criatura igualar-me ao Criador, me dispo de qualquer sensação de
poder e me entrego a um cochilo na grama verde, consigo fazer parte da
paisagem, não sou mais uma intrusa, estou em casa, contemplo as cores que nenhum
grande artista conseguiu pintar, fica tudo claro para mim.
Enquanto penso, um grilo pula e
se apropria do meu corpo, como se eu fosse extensão do mato, eu me assusto mais
que ele, ele permanece, então percebo em êxtase, que descobri um grande
segredo: minha existência, a do grilo, a do carteiro, a do empresário, exige
que sejamos parte da paisagem, não importa onde estivermos, temos que estar
dentro da melhor forma que nos for possível, só assim o tempo passa completo
por nós, assim somos felizes: agarramos o momento pelos cabelos e trazemos ele
para nós.
Queria que esse grilo pulasse por
aí, gente por gente, a mostrar que não podemos ver tanta televisão a ponto de
andar pela vida achando que tudo está atrás de uma tela, inatingível, e entender
que estar dentro, e não na moldura dos acontecimentos é que faz valer a pena viver.
Ainda e por fim agradeço ao
grilo, que mesmo podendo cantar, e não o fazendo, na imponência do seu
silêncio, conseguiu me mostrar o que a sabedoria dos livros escritos por
pessoas jamais assim me fizeram.
Agora “Narciso acha feio o que não é espelho...”
De repente tudo amanheceu uniforme... Todos os homens são
morenos e tem a mesma estatura e eu sou invisível, tango sem bandoneon, Chico
Buarque de olho castanho, Tom que não toca piano, Van Gogh é só um chato (com
orelha) que fez desenho técnico e usa réguas ... as pessoas me falam de tinta
de cabelo, legislações e outras drogas e
estou surda, tento ler os lábios mas nada mais tem uma forma definida, vejo só
uma moldura embaralhada que me julga constantemente por tê-la ultrapassado... parece
que quando abri os olhos estava sonhando, na minha frente sorriam uns olhos de
jabuticaba que traziam a paz do avesso que nunca busquei na escuridão...
lembrei de Narciso... tanto deslumbramento seria por me ver enfim refletida num
par de olhos tão certos que deixariam a Capitu ofuscada? Longínquos me trazem a tão temida sensação
que os outros chamariam de esperança, prefiro dizer que é apenas vida e tudo
que está fora desse olhar é passar do tempo, tudo que eu passo tem um pouco
disso agora, um descompasso, como sentir calor e desejar o inverno e no frio
buscar um cobertor quente... estou pra dentro e já não me julgo como sempre me
obrigava, mas ainda estou num ensaio poético como um ator que espera um grande
papel, adormeci para a inconsciência de viver dentro de padrões e sei que meu
bilhete para uma grande viagem está no bolso, parte de tudo que vou usar para
me despir e que só poderei ir se estiver nua.... ah... e a música como uma bela
religião me lembra: “tanto mar...”
Teatro
A vida é uma constante troca de papéis, um dia amamos no outro somos amados, mas em descompasso, sombras do que somos é que nos formam, nada definido, ontem sentado na minha frente, um estranho, algum personagem que não conheci, mas na verdade eu que troquei de papel, vivo trocando, não consigo achar um ideal....
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