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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Circo de Horrores

Vejo em muitas faces, o punho cerrado, mesmo que as mãos estejam acenando para mim, no recado dos olhos apenas o rancor e o medo de que eu coma a última fatia do bolo. Falo comigo: - não tenho a intenção de ficar com os últimos pedaços de nada, por isso, não faço nada para desfazer nada... obedeço as regras: não dou comida aos animais no zoológico, tento me atrasar todos os dias na mesma hora, e na mesma hora também faço plano de um dia fazer coisas saudáveis, que é sempre no outro dia, em muitas horas eu acredito que as pessoas são mais felizes do que eu no facebook, tantas fotos de comida e eu só no pão com margarina, tantos amores perfeitos e sobre isso só conheço da flor, tantas viagens pelos quatro cantos e eu fazendo sempre o mesmo caminho... volto a ser racional e então acredito que acredito que todo mundo mente um pouco, inclusive para não parecer triste, nem pobre, nem mal amado... minto um pouco também, pelo bem que faz do mundo uma roda que gira... mas no fundo, sei que tanto faz o faz-de-conta, estamos sempre sozinhos e isso é verdade!

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Viva nos padrões das revistas e seja "feliz"!


  • Você tem que ser magra, não pode comer maionese de jeito nenhum. Não basta ser magra, não pode ter celulite e estrias e ainda tem de malhar: todo dia. Mas se for muito magra não é bom, porque tem que ter bunda e peito. Ah, e eles têm de ser proporcionais. As unhas têm de estar sempre bem feitas e o cabelo, bem tratado. Então tire um tempo pra malhar, arrumar o cabelo, fazer a unha e limpeza de pele, sempre!

    Você tem que ser simpática e bem-humorada. Dane-se que, involuntariamente, seu corpo tenha explosões de hormônio. Continue sorrindo, fazendo piadas e achando graça da vida. Você tem de ser positiva também, nada pode te abater. Incêndio, doença, morte etc. Porque você também tem de ser muito forte... mas cuidado! Você tem de ser feminina, ou seja, precisa ser um pouco forte, um pouco feliz, muito equilibrada, mas tem de parecer uma florzinha do campo... Isso não inclui falar palavrão, xingar pessoas, subir na faixa, passar no sinal amarelo... Trate todos bem, isso inclui ex-namoradas, amigos do namorado, babacas insuportáveis que te diminuem. Porque uma mulher de verdade é da paz, não faz escândalo, não reclama, não explode e gosta de todos independentemente de qualquer coisa.

    Você tem que ser independente, ganhar seu próprio dinheiro, manter sua autoestima elevada, pagar suas contas, guardar dinheiro, ser formada, ser feliz na profissão, já que a mulher de verdade não erra nas escolhas e só vê o lado bom da vida!

    Ah... aprenda a cozinhar, pois isso é muito importante para o mundo, já que no fundo todos acreditam que você não nasceu para ser nada além de uma cozinheira doméstica. Seja comedida, não use roupas apertadas, nem curtas. Fale pouco e baixo, evite ambientes de pessoas desestruturadas! Enfim, aprenda a ser uma dona de casa, ao mesmo tempo em que faz faculdade, trabalha, faz academia, unha, cabelo etc.

    Não demonstre que você quer ter uma família, mas também não demonstre que você quer ser solteira para sempre. Não tome a iniciativa, mas não ignore. Não perca a esperança, mas não tenha ilusões. Seja natural, mas não seja demais. Não crie expectativas, mas não saia por aí ficando com um toda semana... Ou seja: conheça alguém, sente e espere, como uma dama, as semanas para ele decidir se você tem todos os milhares de atributos ou se só quer transar mesmo.

    Coma comidas naturais, depile-se sempre, seja carinhosa sem ser grudenta. Ah... seja sexy, mas na medida certa. Não pode parecer, tem que às vezes ser, mas não pode demonstrar que é, aí seja uma atleta na cama, faça tudo... Só que depois, vista uma roupa decente e vá ser uma pessoa séria... Esteja sempre com vontade, disposta, perfumada e tenha orgasmos múltiplos.

    Além de ser magra, séria (mas não na cama), sarada, gostosa, independente (mas frágil), indisponível, formada, feliz, equilibrada, você ainda tem que saber conversar sobre todos os assuntos, ou seja, ser culta, para que seja agradável sua companhia...

    Os amigos dele têm que gostar de você, a família também, e você não pode precisar dele para nada, tem de ser indisponível, mas não pode ser fresca, não pode ser enjoada. Mas tem de ser criteriosa, você não pode cobrar nada e tem que entender que as pessoas mudam de ideia e, muitas vezes, não estão preparadas, mesmo que tenham dito totalmente o contrário há um dia.

    Por Janaina Lübke - Publicado em Crônicas do Jornal Anotícia dia 09/06/2012

O Atropelamento


  • Quando estava saindo de casa, assisti a uma cena indigesta: um carro atropelou um pequeno cão que saboreava a liberdade de romper o portão e alçar outros caminhos. Parei ao ouvir os gritos do bichinho. O dono do carro também parou imediatamente. Saltou do carro com uma rapidez que me comoveu. Observei a cena.

    Como era de se esperar por quem ama “carros”, foi ao encontro... da parte frontal do veículo; e após verificar que não estava danificado, entrou na sua máquina e acelerou. Ora, quem se lembraria de um cão, não é mesmo? E o cão ainda agonizava e seus olhos pediam salvação.Nessa hora, pensei que, quem sabe um dia a (in)comunicação homem/bem de consumo supere todas as barreiras da comunicação do homem com a natureza e com outros homens. Outros talvez serão como aquele cão, passaremos a vê-los como o vê o dono do carro. Entraremos numa introspecção consumista ao ponto de acharmos que um arranhão no carro é mais importante que um ser vivo.Mais desesperador é saber que convivo com vários desses donos de carro e que as coisas tomaram lugar de animais. Só nos resta a comoção, que é a pior e mais contemporânea forma de alienação que o homem criou para enganar a si mesmo.

    Por Janaina Lübke em Jornal Anotícia - 04/06/2010

sábado, 17 de novembro de 2012

Vazilidade


Páginas em branco,
parque sem criança,
casa sem pintura
e eu passando com o tempo
Tu não me celebras nem em verso nem em prosa
E passa com o tempo
Tento não repetir as velhas receitas
De esperar, de consumir, de explodir
Tento não esperar
Mas vendo-te, tão sereno, tão forte
Luto em vão, no escuro e sem armas
Pelo que temo que pode ser
Noites perdidas de sono não me abalam tanto
Poderia estar cega agora
Mesmo assim veria teus olhos e teu sorriso
Claro, alheio, honesto, verdadeiro
Precisamos de você, eu e a solidão
Sempre e não só quando o silêncio nos comunica.

Notívaga


A noite pra mim é um tédio e uma delícia... o silêncio velado pela escuridão me acalma, me acompanha, faz parte de mim... eu sou parte desta escuridão, sou muito mais silêncio. É no escuro que realmente me  encontro, encontro meus sonhos, meus ideais, o tédio é a insônia, que me persegue fiel... estás em meu sonho dia após dia... a cada minuto do tic-tac do relógio... tic-tac...cada vez mais perto... você está vindo... vem chegando... nos comunicamos num misto de medo e desejo... o peso das mãos... a respiração... eu posso sentir... esse fardo me alivia... uma contradição louca... uma imensidão de sentidos sem sons...sono!

Reação a televisão: Bangladesh

Crianças de Bangladesh
Adultos tão pequenos
Alguns nem tem dois anos
Mergulhados numa lama engomada
Que não solta
Não deixa voar
Quem não está lá, está cego
E eu aqui sou tão pequena
Tão frágil
E eles ainda sorriem
Mas ninguém os ensinou a sonhar
Assistimos perplexos
Ou mudamos de canal
Estamos cegos mesmo
Nem olhamos para o lado
Muito menos para uma realidade
Dentro de uma tela
E eles nem esperam
Porque quem espera tem esperança
E eles só tem pedras nas mãos!

Me contando sem cortes


Há muito tempo, venho me perguntando
Do que sou feita?
Às vezes pareço só uma insônia, um transtorno, um avesso de tudo
Outras sou tão normal, sonhadora, lúdica, infantil
Então viro uma fera, com pressa, com gana, ardendo em gelo e chamas
Sou tantas porque não consigo ser nenhuma
Sou uma indefinição
Contradigo a minha contradição
Por isso nem durmo, nem descanso
Procuro em mim ser algo
Mas porquê preciso ser alguém:
Definido, pronto, completo
No fundo, olhando pro céu, tão infindo
Quero ser como ele:
Para sempre!

Vaga esperança!


Espero teus sons, a fala mansa, o riso descontente
E esse teu olhar cheio de melancolia
Que me vê como sou: desajeitada!
Preciso da tua imagem, agora!
Pra não explodir um prédio
Pra não por fogo nas calçadas
Distante: te assisto!
Sou aquela da arquibancada.

Um grande amor de 10 minutos

Ela vinha do trabalho distraída e cansada: por ela e pelo mundo. Cheia da vida tão comum: ela se achava tão especial! Mas ultimamente via no resultado do trabalho, no cotidiano e no amor, que era mais igual aos outros do que até então tentava parecer ser. No fundo sempre soube...

Ele vinha de um encontro, também exaurido de esperas, os olhos dele tinham uma esperança - ela viu isso- mas até então ele não tinha se encontrado. Entre as farpas que a vida de um homem generoso o fazia engolir, todos os dias, e os seus amores fracassados ele continuava acreditando no amor e nas pessoas mais do que em si próprio...

Ela pensava muito, e constatava dia após dia que a felicidade é algo que não existe, pois esta palavra nada tinha de concreta e ela não queria mais viver de ilusões. Vivia desconcertada entre o regime de horas que era obrigada a trabalhar - trabalhava muito e nos últimos dias este era o seu único objetivo-  mesmo que nem tivesse ideia de que agia assim porque nada de mais interessante acontecia há muito em sua vida....

Ele então era músico durante a noite, e sonhava em viver de notas musicais e melodias, escrevia letras e fazia arranjos, que não tinha coragem de mostrar, sempre esperava algo mais, uma letra melhor, uma melodia mais original, enquanto isso trabalhava como professor, dava aulas de história, sonhava em ser herói, como tantos daqueles que povoavam seu imaginário de artista...

Ela amava literatura e pintura, as palavras e as cores é que mandavam na sua alma, no meio de tantas pessoas que talvez quisessem ser um pouco como ela e outros que ansiavam por atenção, ela sempre se sentiu sozinha, trabalhava tirando cópias durante o dia e estudava para ser “alguém” (já que o mundo classifica assim as pessoas)...

Ele saia de casa todos os dias com esperança, ela – a esperança- saia pelos olhos e tomava todo ambiente, mas a maioria das pessoas não a reconhecia, já que ninguém tem mais tempo para olhar nos olhos dos outros, ele tinha 33. Casado e divorciado há dois anos, se achava um fracassado no romance, pois sempre que foi amado não pôde amar, por não entender muito bem esse tipo de amor que sufoca o que se é para esperar em troca algo que não se pode dar.

Ela nunca tinha sido amada, e depois de fazer 25 é que tinha visto que tudo que tinha ouvido dos homens era por interesse no seu corpo e que ninguém, absolutamente ninguém até hoje a conheceu, fora o seu corpo todo resto estava intacto, inexplorado, ninguém tinha chegado nem perto da sua alma. Ela se sentia culpada, tinha medo de perder o controle por isso não se entregava a ninguém...

Ele já tinha tentado viver o amor, teve vários romances, mas sentia que por uma razão que desconhecia dizia e os outros entendiam o contrário, assim nunca tinha amado ninguém porque ninguém sabia ver nele o que ele realmente era e sim interpretações fantasiosas daquilo que queriam que ele fosse.

Ela já tinha desistido desse amor (ou acreditava que tinha) e entre conversar com Machado de Assis e ouvir Chico Buarque, ela pensava em criar alternativas para que a vida afora não a entediasse tanto, não sabia se se isolava do mundo com as tintas e os livros ou se enfrentava a hipocrisia de viver em sociedade...

Ele ainda pensava em amar, queria ser descoberto, queria perder o ar e sair do chão, mas se achava desastrado e azarado com as mulheres, queria uma mulher especial, mas tinha uma capacidade enorme de atrair mulheres comuns, daquelas que fazem de revistas de moda seu catecismo...

Ela estava com medo, tão jovem e já não tinha mais certeza de seus objetivos, não sonhava em ser mãe e nem ser uma grande profissional, estava estagnada em um mundo que tinha criado dentro dela e que não conseguia sair...

Ele queria alguém sensível, com quem pudesse conversar sobre música e sobre livros sem parecer chato ou entediante, alguém que o entendesse até no silêncio, alguém para proteger e para amar sem se preocupar com fórmulas de conquista e nem ter que premeditar palavras e comentários...

Ela pensava que só se apaixonaria por alguém que fosse simples e forte, que dominasse a situação sem dizer nada, alguém que a levasse com ele para a paz, com o qual não precisasse ter que vestir uma máscara de super-mulher, alguém que visse sua fragilidade e quisesse transformá-la em amor...

Os dois queriam um ao outro, por toda a vida.

Nunca tinha a chance de se encontrarem, sempre se atrasavam e driblavam os planos do destino e ele era adiado, ela mergulhada em pensamentos e ele perdido no espaço dele mesmo, se cruzavam todos os dias mas não se viam até que...

Sentaram-se lado a lado para esperar o trem, ele chegou primeiro e pode vê-la caminhando na sua direção, a achou muito atraente, olhou seu corpo e seu rosto, seus cabelos compridos e pensou que talvez fosse ela, mas pensou melhor e imaginou que ela já poderia ser casada, ou comprometida.

Ela só agora, depois de sentar o notou, olhou que ele parecia sorrir para seus próprios pensamentos, e viu seus olhos, olhos vivos e honestos, que brilhavam, e soube que ele estava pensando nela, ela pensou em sorrir para ele, mas ficou com medo de parecer louca.

Ele olhava para frente, mas sorria com o canto da boca.

Ali, os dois dialogaram durante minutos, sem que uma palavra ousasse sair das bocas e foram interrompidos pelo trem que acabara de chegar. Entraram então: ele primeiro.  E ela com esperança que ele dissesse algo parou ao lado dele. Dois caminhos prestes a ser uma rua.

Quando um olhava, o outro desviava os olhos em uma valsa antiga que aqueles olhos cúmplices insistiam em fazer. Ele pensava em falar. Ela esperava que ele falaria. Ele não teve coragem. Ela ficou com uma pontinha de raiva.

Ele então perguntou se ela não gostaria de sentar. Ela como já não esperava mais nenhuma atitude se surpreendeu e disse que não, pois já estava perto de casa. Ele então sentou-se, e ela desceu, e sorriu para ele do lado de fora.

Ela teve um lampejo de filme romântico e o imaginou e descer e correr até ela para dizer tudo que aqueles olhos carregavam de bom.

Ela se decepcionou e esqueceu aqueles minutos que a fizeram pensar no amor.

Ele do lado de dentro, pensou em sair, em correr para ela, mas se achou ridículo por pensar assim, nem a conhecia, ela poderia rir dele.

Cada um seguiu seu caminho...

Ela foi promovida. Mudou de cidade. Entre um caso e outro continua sozinha e se sentindo incompleta, sofrendo com a insensibilidade das pessoas e pensando que esse amor talvez seja mesmo ilusão de poeta...

Ele se casou por pura convenção social e teve um filho, sua solidão serviu para que ele ficasse cada vez mais inspirado, mas continua sem mostrar sua música para não parecer sonhador. Vive de algumas aulas de música, mas está fazendo um curso técnico, a pedido da esposa, assim pode ter um emprego com carteira assinada e dar uma vida mais confortável para sua família.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Sempre insensato o furacão,
não vem de brisa
não escolhe a estação.
Vai embora solitário para o céu
mas vira-volta em vento para passar bem devagar
se deleitar com a desolação
Festa faz como redemoinho
Desarrumando a bagunça deixada pelo chão.

sábado, 27 de outubro de 2012

Espinosa

"(...) No Tratado da correção do intelecto, Espinosa parte da experiência individual e intersubjetiva como experiência trágica: o sentimento de perder um bem desejado cada vez que se imagina tê-lo alcançado. Essa fuga interminável de bens que se consomem e nos consomem, divide os homens e os aliena porque imaginam a felicidade depositada em coisas que precisam ser possuídas com exclusividade. Essa perda incessante torna impossível não só a realização do desejo da felicidade, mas também a liberdade, lançando homens numa guerra sem freios pela posse dos objetos nos quais investiram sua esperança.(...)" in Espinosa: uma filosofia da liberdade, Marilena Chauí, p.38.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O perfume do amor nunca muda...


Ficamos os dois frente a frente, e hoje, especialmente,  nos abraçamos como velhos conhecidos, ambos temos boas máscaras que nos protegem e cimentam o amor lá embaixo, na calçada, sob os pés, ele já tentou romper o asfalto diversas vezes, mas cada vez que isso acontece, aparece uma rachadura, que começa a estremecer as estruturas, logo vem alguém,  passa massa e remenda, pronto! Parece novamente que não houve nada ali, sempre fica a gentileza plana e consertada.
Aquele perfume ficou, testemunha de tantas idealizações, que agora na lembrança, parecem vivas, ainda o vejo como o menino sem grana e idealista que encontrei na padaria há dez anos atrás, falando de música e filosofia e ele ainda me vê como a menina que tentava disfarçar a ingenuidade e insegurança com um discurso moderninho, com medo de falar alguma besteira imperdoável.
Nós sempre sacamos nossas fraquezas, mas como natural do amor, fazíamos de conta que era só uma novela. Como natural dos nossos postos sérios de agora, cada um seguiu para sua casa, para pensar em como teria sido.

Sem Controle


Muito se discute sobre as qualidades de uma pessoa e como aquela deverá ser melhor do esta, por certos parâmetros subjetivos,  como se fosse possível prever o comportamento humano, esta atitude é típica da maioria dos homens e soa como um paliativo para as suas aflições:  acreditarem que têm o controle de algo.
Não sei se é triste, ou se apenas é, mas há uma doentia necessidade de prever o propósito do outro, bem como, o próprio futuro e ações, como se estivesse absolutamente em suas mãos o que acontece daqui até o próximo passo.
Essa necessidade é que permite os grandes debates, julgamentos, preconceitos e a doce ilusão da premonição e da magia que é:  saber algo que ninguém sabe, antes de todos,  fico pensando... como saber que alguém é louco ou santo? Como saber se algo é justo ou injusto? E quem inventou os parâmetros?
Como julgar o que os outros pensam se mal nos conhecemos e muitas vezes agimos totalmente contrários ao nosso próprio discurso?
O fato é que a vida escapa das nossas mãos e pretendemos em vão segurá-la com a falsa percepção de que temos, assim como com as máquinas, um controle remoto, pronto para ser acionado a cada dissabor, assim seguimos nos enganando e sofrendo pelo que poderia ter sido e não foi e pelo medo do que não queremos que seja.
Aí residem todas as conjecturas e especulações... um homem "mal encarado" vem nessa direção... será que é ladrão? Bandido? Drogado? Vai me assaltar? Machucar? Deve ser uma malandro! Vagabundo! Ele passa e nem olha e segue para sua casa, depois de passar o dia construindo a casa de alguém que visitaremos algum dia.
Ele chega em casa troca de roupa e sai com sua família, vem alguém mal vestido em sua direção e ele pensa: será que é ladrão, drogado, bandido? Deve ser malando ou vagabundo! Sem se dar conta que uma hora é julgado e na hora seguinte se torna o próprio julgador.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Aprender e ensinar a partir...

Numa dessas conversas entre amigos cheguei a uma conclusão sobre a vida: ninguém nos ensinou a partir!
Fui ver no dicionário o significado da palavra, para garantir a clara intenção do que eu queria transcrever,  este verbo tem vários significados: quebrar, desfragmentar, abandonar, seguir viagem, ir embora.
Então constatei indignada que não somos preparados para seguir viagem; de uma casa, de um amor, de um emprego, de um casamento, de um lugar... ou daquelas situações aconchegantes como ventre de mãe, que nos dá pouco espaço para abrir os braços, mas ao mesmo tempo o medo, de que a luz e a claridade do que está fora sejam insuportáveis.
Não nos ensinaram a abandonar planos, e quando o fazemos é quase uma obrigação sufocante, um esforço de alma oprimida por fatores externos por um belo "chute no traseiro" ou uma grande mágoa, que seja suficiente para garantir a esperança de que a mágoa da partida será menor.
Já tive que partir muitas vezes, mas partiria muito mais e sofreria muito menos se dentro de mim houvesse uma centelha de segurança de que há beleza em ir e há coragem de um caráter firme na ousadia de buscar o desconhecido.
Meu pai e meu irmão foram embora: cedo demais para mim - que não aprendi a partir - ... talvez se eu soubesse... eu os deixaria ir sem querer que eles ficassem.
Aliás, se aprendêssemos a seguir, entenderíamos melhor aqueles que partem e tudo ficaria mais fácil: menos lágrimas, crimes passionais, amores ao avesso, dependência, porém, é muito difícil entender quando alguém vai-se, pois não aprendemos ir.
Como entender que num mundo em que nada é estático ainda hajam lutas para que ele não gire, e muitas dessas,  revestidas com o belo nome de amor? Fácil! Quem não aprendeu a partir vai encontrar nos argumentos mais sublimes a sua dose diária de conforto para ... ficar.

Publicado no Jornal Anotícia - em 16/02/2013

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Microconto 5


Incondicional//Amou-o como nunca amou ninguém/ por ele gastou até o último vintém/em troca sobrou só um bilhete:/ - Mãe, te visito ano que vem!

Microconto 4


Tatuagem//Quis marcar o amor na pele/achou que nunca acabava/a tatuagem ficou/mas o Antônio se foi/não gostava muito de mulher tatuada.

Microconto 3


A espera// Ele disse que ia ligar!/Ela passou o dia inteiro ao lado do celular/As horas passaram/Ele ligou!/Para outra/ que esqueceu de lembrar.

Microconto 2


Festa//Por folia baila/até o som se cala:/-fecha os olhos bailarina!/- que logo vem o dia, com os calos e a melancolia.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Somos os dois lados da mesma moeda

Não adianta! Não compro mais os dramas da vida moderna, não aceito mais esse sofrimento banal do fim de romances por pessoas que idolatram umas as outras e depositam num único ser toda a responsabilidade de felicidade e amor eterno.

As pessoas mudam. Ponto final. Conseguimos compreender perfeitamente isso, aliás, quando nós é que decidimos mudar, mas quando alguém quer seguir por outro caminho, pronto! Começa o amor pelo avesso, as interrogações: onde foi que eu errei? O que poderia ter feito? O que ele quer que eu não tenho?

Aquele que muda, o corajoso, segue o seu caminho... já o rancoroso, aquele que acha que "perdeu" uma disputa: esperneia, se deprecia e quer contar a história triste para que todos tenham pena, o rancoroso é sempre uma vítima.

São as vítimas sentimentais, que levadas por puro egoísmo não distinguem pessoas de objetos: "-São meus: meus planos, meu futuro, meu, meu, meu....- " O pior é que viver assim é muito mais difícil, imaginar que podemos controlar é uma ilusão dolorosa que acaba.

Existem várias formas de se contar uma história, mas é só notar: a vítima sentimental vai encontrar um jeitinho de lembrar da sua através de relações que não deram certo, e sofre lembrando, e sofre esperando, vazia.

E não se contentam em ser assim sozinhas: vítimas solitárias, querem que todos a sua volta sofram também, e não pense que você ficará imune, pois entender o sofrimento é uma forma de sofrer também.

Também há muitas maneiras de ver a vida, a da vítima sentimental é aquela  facilmente reconhecível: ou está lamentando a perda de um amor do passado ou imaginando uma relação ideal no futuro.

É o passageiro da lembrança e da esperança, que enquanto se preocupa tanto com suas distrações mesquinhas se perde no relógio implacável... inclusive reclamar sobre o tempo é uma das grandes distrações da vítima sentimental.

Não caia nesse jogo! Viver não consiste em perdas e ganhos... deixa que vá... e não pense que a vítima sentimental sabe alguma coisa porque alega que se entregou, esse tipo de entrega é desnecessária. 

Vamos manter nossas almas além das chegadas e partidas! Quantas vezes não fomos nós mesmos que decidimos ir embora? E quando não, quantas vezes só nos faltou a tal coragem? 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Vida Breve


“A vida real do ser humano consiste em ser feliz, principalmente por estar sempre na esperança de sê-lo muito em breve.” (Edgar Allan Poe)

Procurando sem querer um site qualquer me deparei com essa frase, sempre penso no que o Sir. Edgar disse, pois sua forma perturbadora de ver a vida muitas vezes já me causou empatia. Lembro do impacto que tive quando caíram em minhas mãos suas Histórias Extraordinárias e o poema O Corvo, de uma densidade dramática e pessimista que chegavam a dar medo.
                Fui buscar sua história de vida, para entender porque alguém escreve o que escreve, de tal modo que não poderia ser obra de ninguém mais no mundo a não ser aquela pessoa. A biografia, com  requintes de um grande drama da vida real: abandono, perda, doença, vícios. O grande conflito da imposição social que sofre todo artista para ser algo totalmente fora de sua habilidade e leva à aquela delicada corda bamba entre agradar à todos ou alimentar seus próprios anseios.
A constante presença da morte em suas obras de ficção contrasta com a frase aí de cima: felicidade, vida.... porém, esperar a felicidade que venha sempre em breve, no próximo capítulo é a morte presumida, cotidiana, a morte que o fazia escrever sobre ela, a esperança que ele também tinha e nunca alcançava.
Insisto que ele tem razão, contemporaneamente, comovidos pelas belas cenas da caixa preta da sala, sonhamos! E sonhar, não é bom? Sim, é essencial ! Desde que não nos contentemos com a sua realização através de uma imagem, atrás de uma tela.
O Criador nos deu a vida para façamos parte e isso envolve a responsabilidade de entendermos a dádiva de viver cada dia desperto dentro na realidade que temos, é a única que podemos alterar. Presente deriva de presença.
Somos injustos ao transferir ao tempo e ao acaso a nossa atribuição de viver agora, como nunca: o amor melhor é no futuro, a plenitude vem depois do carro, que vem depois da casa, que vem depois do sucesso profissional, o vizinho é mais feliz , e se fosse assim, e se fosse outro lugar, e se fosse outra família, outros amigos... e se...
                Enquanto isso deixamos de lado a realidade esperando o “muito em breve” da frase-título e dormimos acordados nos planos que sonhamos para o futuro. Mas e hoje? O que de real fez com suas horas a ponto de poder dizer: eu estou vivo!

domingo, 2 de setembro de 2012

Fragmentos de Drummond

Anotação em um diário meu de 2009: algum fragmento de um poema completo do Drummond:
"Como fugir ao mínimo objeto ou recusar-se ao grande? Os tempos passam, eu sei que passarão, mas tu resistes e cresces como fogo, como casa, como orvalho entre os dedos, na grama que repusam.
Já agora te sigo a toda parte e te desejo e te percom estou completo, me destino, me faço tão sublime, tão natural e cheio de segredos, tão firme, tão fiel..."

O Hóspede Desconhecido - Como acaba uma relação

 
O relógio marcava a mesma hora de sempre, anos naquele horário, ele chegava, a beijava sem pudor, sempre pensando no momento de vê-la na horizontal. Novas carícias... e sucumbiam ao prazer depois seguiam com destinos opostos.
Ela pensava em casamento, ele pensava na próxima vez que a veria nua.
Para garantir seu futuro ela se cobria de enfeites e se perfumava de tal forma que todos ao seu redor (que não tinham coragem de comunicá-la) notavam que o frasco do perfume tinha problemas e sempre borrifava direto nos seus olhos, o que tornava sua visão opaca.
O esforço para parecer que seria uma boa esposa era imenso, uma vez, queimou as mãos tentando cozinhar para ele um jantar. Não se sabe se ele gostou, mas depois desse dia, ele sempre queria encontrá-la direto em algum restaurante.
Para garantir "a próxima" ele respeitava o sonho de casar da moça, como se respeita qualquer sonho que alguém diz que teve com você, entende? Também não se desmonta as iluões de alguém, ele pensava. Ainda se sentia lisonjeado por ser escolhido... desde que não saisse dos planos.
Uma enganação que chegava a parecer amor.
Como queria muito continuar a vendo na horizontal, mas precisava de algo que prolongasse o sonho da moça, comunicou: - Até me caso, mas antes disso, você tem que ter uma faculdade pelo menos! Vá estudar, que eu pago. (Pagar uma mensalidade sairia mais barato do que contratar uma profissional ou que gastar com festas, filhos, família).
Então, como era de se esperar, ela se sentiu muito culpada e entendeu o argumento, no mesmo dia começou a pesquisar e se matriculou.
Enquanto não começavam as aulas: mesma hora, mesmas carícias ardentes, banho, veste a roupa, beijo e despedida. Como ela se sentia perto! Mais quatro anos estudando e enfim o vestido de noiva.
No primeiro dia, na primeira aula: eis que surge O Cientista! Tudo que a voz mansa dele dizia entrava por um canal desconhecido da cabeça da menina, que antes só queria ser uma boa esposa... saiu com a frase na cabeça: "o que me comove, não me move"... tentando absorver aquele homem, aquelas palavras, era um começo e um fim.
Mesma hora, mesmas carícias e... não! Não houveram carícias: o sonho mais belo estava murcho. Ela já não reconhecia aqueles gestos, a fala, o assunto, aquele meio nunca seria mais o dela, aliás, era um alienígena fora do seu planeta.
Fim de tudo! Lágrimas de crocodilo e promessas de campanha, mas nada! A dor que ela provocava era como uma piada simples, mas que sempre tem graça.
Onde estavam os outros momentos? Ela teve que refletir ao ser questionada. Pensou que estariam já mofos numa caixa de papelão de achados e perdidos da mente "roda viva".
Era vento, que levava folhas secas do chão e derrubava outras, para movimentar a esperança de esperar algo que sempre teria que ser melhor, muito melhor do que aquilo que já era passado, mas o que era mesmo? Já tinha esquecido para caso de comparação.
Ela acreditou que ele se julgava amado por ter dado tudo que podia: desempenho mecânico. Mas ele parecia só um estranho daqueles que cruzam o caminho na rua e não deixam nem levam nada.
O estranho continuava falando e por compaixão ela se questionava: "de onde conheço?" "Porque ele esbraveja e faz promessas, como se eu fosse responsável pela sua dor?" Ela só pensava que estava atrasada, ia perder a aula com O Cientista, e isso sim, seria um desastre.
Vem uma única frase na cabeça da moça, apenas a fim de apurar o encerramento do assunto: - "Tudo acabou!" Quis muito fazer cara de triste, mas achou engraçado o "tudo" da frase, já que ali estava só um punhado de carne ambulante, que queria sexo sem compromisso.
Ele ficou na porta, vendo o carro sair, chorando...  pensando qual outra mulher estaria disponível, como ela naquele dia, para ele não perder o seu dia de foda, ops! Quis dizer: folga.

sábado, 1 de setembro de 2012

O tempo é um largo vento

O tempo passou como um largo vento, não vou dizer que fui muito feliz, que vi o arco-íris, que fiz das nuvens um quintal, mas posso dizer que sim! Sofri demais, chorei miligramas de verdades, escrevi e joguei fora muitas cartas que não ousei entregar...errei muito também: julguei quem era bom, ruim; desprezei bons sentimentos alheios. Amei demais! Estive pronta, de peito aberto para qualquer novidade que a vida me trouxesse e de esperar sempre a dinâmica delas, o tempo passou: rápido para mim.
Drummond disse: "as notícias ficaram velhas" e estou aqui, mais espectadora do tempo que antes, por algum acontecimento fantástico que me valha.
Eu digo: não façam como eu, não deixem essa alegria aí de dentro "aguardada, abafada esperando o Carnaval chegar..."
Joguemos fora as listas de tarefas, que só nos aquietam o corpo e não preenchem a alma! Não tentemos "criar a vida futura" a única hora que existimos é essa!
Acreditando ser miseráveis ou não, só nós resta ser o que somos neste momento e viver esta vida, apenas, sem mistificação, entendendo que há propósito em tudo.
Não rejeite o universo infinito de escolhas que te espera, quando te tornares dono da tua consciência!

Humildade

Quando sentir que seu ego está te revestindo de sábio em busca de sabedoria apenas para ultrapassar degraus e olhar quem está embaixo como se fosse qualquer coisa de diferente... é hora de rever essa escada e essa pseudo-sabedoria, sem humildade não há nada!

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Escrever...

A densidade das palavras pode iniciar uma revolução?
Caso sim, eu gostaria de saber...
num canto de um quarto comprimida no canto de uma casa no canto de um pedaço de terra...
eu só faço escrever!
Uma caixa de catorze polegadas machada pelo tempo
Me mostra a fome, a desgraça, a tragédia, a morte, viagens ao mundo, o amor das estrelas....
Pessoas que eles querem que eu queira ser...
e eu só faço escrever!

Acordar...

Nem sempre é fácil começar a perceber que o lençol é áspero, que as frases são apenas de efeito e que temos que voltar para dentro de nós e encontrar a bondade que tanto almejamos no outro, enquanto ainda percebo o mal, ele existe só dentro de mim...

Microconto sobre relações amorosas


- Precisamos conversar, disse. Ela pensou em casamento. - Não “tô” feliz!, disse. Ela chorou. Ele olhou o relógio: muita pressa e pouca culpa. Soluços altos para ele ouvir. Ele correu para não se atrasar. Ela dormiu ouvindo Wando, abraçada com as flores de plástico que ganhara no último dia dos namorados.

Cartas não enviadas 6

Estes últimos dias tem sido como vagões fechados para mim, queria que soubesses de alguma maneira como podes me fazer tanta falta como agora. Tenho pensado muito em ti, sei que em vão, mas tu não vais embora, o te ver aos beijos com outra tive minhas aspirações arrasadas como uma pedra de gelo no deserto, não tenho ninguém que me ouça, o fio de Ariadne partiu-se, se é que ele existiu algum dia, e não posso te ligar e nem tentar te convencer. O vazio que esta falta me faz é muito maior do que todo meu ser,  queria Ter sonhado, ou muitas vezes tenho desejado jamais Ter te conhecido pois a minha vida seria mais amena sem lembrar das músicas que te ouvia cantando, como as sereias que seduziam todos com seu canto. Ao menos se eu soubesse que tu também pensas em mim, que tu te arrependestes, mas de ti não sinto nem coisa alguma, sem sinais, penso que te escrevo e que os anjos transportem naquela linha que ultrapassa a razão minhas angústias, queria tanto saber uma maneira de colocar de volta num coração tudo que um dia ele sentiu, apagar da memória aqueles erros que fizeram algo que poderia ser muito maior e mais forte se esvaírem como uma barca furada, se ao menos eu soubesse que assim como eu, tu sentes minha falta, que apesar das demonstrações de indiferenças que tens me dado, tu também sentiu em algum momento que tudo poderia Ter sido melhor, sublime, escrevo aqui e tudo que eu queria é que como num sonho estas letras chegassem até ti, no teu coração, já que teu lado racional é muito afetado pelas ilusões do poder. Pensei Ter sido mais para ti, mas nada, não fui nada, a crueldade que tomou conta de ti mostrou-me que nem tudo é como eu penso, que as pessoas não tem e nem são obrigadas a terem o mesmo tratamento, a mesma disposição para comigo. Acordei para uma realidade diversa da que eu vivia, e ver-te nela tem me angustiada, porque na minha imaginária realidade de antes ninguém era tão ruim e indiferente aos sentimentos, tu me ajudastes a ver que as pessoas não são boas como eu e que isso não é nem surpresa, não deixa ninguém pasmo. Como eu tenho saudade daquele amor doce de antes, sem aquele olhar de ditador insensível, não consigo esquecer o último olhar que me destes, a frieza, a indiferença, um escárnio difícil de entender....

Cartas não enviadas 5


Adorado meu, sei que leste a última carta, outrora contentaria-me em apenas saber-te alguns segundos com o pensamento voltado a mim, mas encarecidamente peço-te agora mesma leitura e mais reflexão ao que venho neste papel – que se observares bem traz consigo reflexo de minhas duras penas- relatar-te:
....ele despertou hoje pior e em protesto a ti tentou despedaçar-se e não conseguiu, usou vários meios até perder a persistência, ficou muito decepcionado com os poetas que já falaram sobre coração partido, sentiu-se iludido ao constatar que ele na condição de coração tentou partir-se e não obteve êxito, quis com conhecimento de causa alertar os todos os românticos que como ele também acreditaram nessa máxima do romantismo, mas foi uma centelha que logo passou, o louco e faiscante amor que ele cultiva por ti ainda é o motivo mor de sua angústia e a tua alienação ao sentimento dele o seu maior penar.
De raiva, virou-se de costas, deixando-me por morrer, entupiu várias veias do meu debilitado corpo e o que me mantém viva é a esperança- companheira e amiga ilusória do amor-perfeito-  que todo coração apaixonado guarda consigo apesar dos pesares.
Quando tudo está entupido e eu começo a passar mal, como mágica ele percebe algo de teu e vira-se para seguir teus sinais, então me dá uma trégua descongestionando as minhas veias, é assim que vivo, a rogar por tudo que faça o meu coração buscar-te.
Escrevo-te depois de acalmá-lo com Mozart, Bach e Bethoven e uma leitura de Shakespeare, mas ele está cada vez mais faminto e eu fraca, já que ele ainda passa o maior tempo virado de costas para a sua melancólica realidade.
Ajude-me, penso que um beijo teu transformaria a minha já tão ressequida existência, tenho sensação de que um beijo aquietaria meu coração,  um beijo apenas...“vês que nem te peço amor”.

Jamais menos tua que agora,  

Cartas não enviadas 4


De um local inóspito dentro de mim, “quatro paredes sólidas” e cinzas, uma pequena janela com grades, de agradável a leve brisa da alvorada que me envolve; dia daqueles em que penei por tua ausência; em Setembro, mês que acarinha com um ósculo de vento e um cálido abraço, num ano de grandes mergulhos ao fundo de mim.
Escrevo-te pelo descompasso do meu coração, que já é audível em som com velocidade da luz.... ora doido, ora desgraçado e bem menos contente, músculo que nada mais é - para os “civilizados” como nós- : o rádio transmissor da Divina Providência.
A razão por mais que lute contra, não consegue lidar com as perturbações dele, este insano tomou conta de mim e traiçoeiro controla meus anseios, desperto por ti, quer vingar-se do tempo que permaneceu mudo, já que eu furei com uma agulha sua língua, quando ele ainda era bem pequeno. O reneguei a ponto de suprimir seus conselhos.
E não me julgues tu, apenas desejei um dia ser igual a turba de idiotas que temem amar o perdido - em algum momento de nossa existência atípica, nós portadores da felicidade realista, em meio a tanta mediocridade acabamos nos questionando se há algo de errado e, ou por medo, descrédito, até por indignação colocamos um pé na rotina burra dos que trabalham, comem, dormem, falam, amam e vivem para serem iguais aos outros, que horror!-.
Ele, il corazòn,  tem gritado muito, após perder a fé em ti, o coitado quer espalhar-se pela atmosfera, como o andrajo que se tornou por conseguinte minha imagem que mais parece uma marca d’água e em nada retrata a franca beleza de antes.
Pois tu, anjo falsificado de sedução, libertou-o deste cárcere privado e involuntário, curou-o a base de olhares serenos, comentários seguros, melodias e sons coloridos, como milagre de Santo fez com que ele despertasse e conseguisse falar tão alto aqui dentro que todas as vozes remanescentes calaram-se.
Malfadado destino para o pobre, já que de tanto querer o teu sem ter de ti o mesmo afeto deixou-se degredar para o país dos corações bandidos.
Quer ele aprender na marra o significado do amor - “grande palavra, faiscante e misteriosa, de onde a felicidade escorre como a água de uma taça muito cheia”-, me acusa, primeiro por tê-lo deixado calado, em seguida por deixar-lhe a tua mercê.
Histérico, passa horas repetindo que uma vez perdido a língua já tinha se acostumado à submissão, quer recuperar o que perdeu, quer dizer-me tudo que não pôde, tomou posse dos meus  seis sentidos, de tão revoltado que está não ouve mais, ensurdeceu, entende tudo errado.
E tu, tirano, sumiste! Levaste contigo meu exército de sensações, que são teus criados, moro de aluguel dentro de mim, conquistaste parte por parte até chegar ao coração, que rendeu-se enfeitiçado com teu canto.
Me digas o que faço com este louco independente, que hoje só adormeceu por algum tempo depois de absorver três livros do Machado e sete Cd´s do Chico Buarque para suprir a falta que tu fazes a ele.
Me pergunto, te pergunto: quanto tempo terei que remediar? Responda-me tu: suponho eu que tua presença já deve ter enlouquecido muitos outros corações sem retorno vida afora, o que fazes com estes trapos? O que eu digo a ele quando o desvairado despertar?
Temo por ti, ele me domina, toda tua integridade está ameaçada e toda minha também, ele quer atingir-te. Não estou ameaçando-te, quem te fala aqui é a parte passível de mim... mas daqui a pouco ela perde o domínio... e... 

Jamais menos tua que agora

Cartas não enviadas 3


À ti ... que tem sido minha melhor companhia: quando sim, minha alegria; quando não, minha inspiração...

....letras, melodias, declarações, adereços, gritos, euforia, tesão... sempre gostei de usar palavras para representar sensações e por ti quantas obras de arte fui capaz de fazer?!
Compus uma ópera, um blues, um samba-canção, uma sonata, e de tão belas, jamais as tornei públicas, num acesso de puro egoísmo, para que ninguém compartilhasse da mesma sensação...
Dancei sozinha, salsa, tango, valsa, no meio da pista lotada, toda vez que soube que em algum lugar do salão estavam teus olhos a me vigiar.
Escrevi um vasto acervo de poesia e prosa, textos e composições, objeto de inveja dos imortais das academias de letras, objeto da crítica positiva dos maiores entendedores de literatura do mundo e os assombrei todos, ao declarar aos quatro cantos que a única intenção daquela nobre obra era a tua admiração e julgamento, e que outras opiniões eram irrelevantes e não alteravam nenhum centímetro do meu estado de espírito, exceto a tua ...
E como nada adiantou para te conscientizar da dimensão e da magnitude dos meus sentimentos, como último suspiro do ser que se esforça para não perder a vida, percorri parlatórios e proferi os mais sublimes discursos já ouvidos, transcendi o lógico ao conseguir convencer à todos os povos um ideal único, a minha súplica por ti suscitou lutas pelo amor onde alcançou o som de minha voz e se propagou mais que praga, o mundo então perplexo de amor jamais foi o mesmo.
Como uma “pazzia d´amore” o “Leonismo Fantástico”, meu movimento para ti, tornou-se o catecismo do século, uma bibliografia imprescindível para filósofos, intelectuais, doutores e monges e despertou ainda a ânsia de leitura daqueles miseráveis analfabetos de senso, apenas para que acreditasses que eu era capaz de conquistar o mundo todo para te conquistar...
Sem sequer merecer alcançar a altura do teu peito, o que eu tinha eram tuas etéreas lembranças, sem pensar parti para contravenção me tornei bandida, ladra, louca, maldita e temida até pelo  mais criminoso e poderoso dos malfeitores, fui capaz de atrocidades para provar o contrário do que a minha alma sonhadora sempre previu, que sem o amor do mais desejado dos seres não há luz, nem paz, nem melodia, não há inspiração, desmistificando e blasfemando minha própria obra.
Todo povo, assim como eu, também desistiu de ser, e eu numa busca incessante de ti, apoiada pelas forças do mal - que sempre se dispõem nestes momentos - te encontrei, e num rompante de ânsia, volúpia, angústia, te engoli inteiro, imaginei que assim nenhum outro ser seria capaz de conviver neste mundo com a tua alma através do corpo que eu acabava de engolir, fiquei cheia de ti, até que a tua alma conseguiu fugir pelo escuro dos meus olhos, ainda tinha o teu corpo inteiro, parte minha, mas para nada adiantava, já que tua alma continuou livre e como dádiva reservada aos grandes, ganhastes asas e voastes longe, e eu triste, feia de tão gorda, e não menos desacreditada pelo povo... morri... de indigestão...
Minha obra literária após minha lamentável morte serviu de base para todos os movimentos contemporâneos, e eu tornei-me um ícone de toda uma geração.
Tu cansaste de voar com tuas infindas asas, quiseste ser mortal novamente, procuraste uma alma sem expressão, um ente despersonalizado que fosse fisicamente parecido contigo, encontraste um advogado positivista, confrontando-te com aquela fraca alma de positivista tua nobreza de espírito venceu logo e os teus vôos pela terra ajudaram a te tornares o melhor advogado pois conhecias a fundo a vida que códigos e constituições jamais ensinaram aos outros infelizes que ainda acreditam que tudo de importante já foi escrito e deve ser seguido ipsis litteris.
Resolveste pela primeira vez ler com coração a minha obra literária, e naquele momento quiseste com fúria e arrependimento um momento para nós, chamaste meu nome, decoraste minhas palavras e como advogado reivindicaste para ti direitos autorais sobre a obra inspirada na tua alma, provaste com argumentos irrefutáveis as tuas razões, venceste a causa e passaste a vida a gastar aos tufos o meu dinheiro.
Quiseste ser escritor, já que não suportaste continuar vivendo no meio bitolado das leis, inconscientemente tentaste me superar mas jamais chegaste aos meus pés por não conseguires encontrar em outro ser a inspiração que encontrei em ti e que tu encontrarias apenas em mim se tivesses  ouvido de ouvir e olhos de enxergar”.

Resposta ao cientista sem tempo



Celebra a cada dia n´alma
a sabedoria que os livros te deram
mesmo ocultando de todos quais fabulosos métodos assim te fizeram

Para respirar: só um segundo,
escolha o em cores, aquele de quem pode ser dono do mundo
Vá e volte naquela fração de segundos para a tua indigente realidade. 

Enquanto mastiga aquela fatia de comida mal mastigada
Para! E lembra de quem te quer bem: Filho, homem, amigo, irmão
E vê bem se há no mundo criatura tão amada

Quando na quietude da negra noite
No teu quarto estiveres deitado, cansado, pense com toda força do teu espírito
Em quem te faz, sob duras penas, ser assim desejado

E pensando, tenha certeza que o relógio do amor
é diferente dos outros, o espaço do amor não pode ser limitado
E não é o tempo dos homens que qualifica qual dos seres é o mais amado

E nós apesar das horas silenciosas,
da sofreguidão da ausência e do desalento,
só entenderemos ao amar... que para o amor não existe tempo!

Cartas não enviadas 2


As doces e amargas lembranças da infância vieram à tona com toda força, tomaram conta de mim hoje, meus olhos cheios de lágrimas e lábios secos produzem um sensação de mofo, sabe que hoje novamente tua lembrança ficou bem mais forte, lembrei daquele sentimento que tinha por um primo próximo e consegui ver claramente que era amor, amizade, brincadeira inocente de criança, uma ligação mental muito forte e como num paralelo cheguei a tua imagem, achava besteira quando ouvia dizer que coração doía, pensei sempre ser um artifício dos ultra-românticos, ou sou besta também ou estava enganada, meu coração tem doído realmente, e dói sempre quando penso em ti e não é exagero.
Acho que sonhei, pude então lembrei da minha infância, quando criança queria mudar o mundo, me sentia forte – e era- para enfrentar tudo e imaginava que seria um dia uma rainha, não era fantasia, era algo concreto, acreditava que podia, mas cresci com tudo e todos tentando me provar o contrário, que eu era comum e que jamais iria longe, convivi com a mediocridade de perto e acabei por achar que a única medíocre era eu, sufoquei praticamente toda sensatez que tinha e continuei convivendo com a mediocridade, acabei parte por incorporá-la e até aceitá-la como normal no meu próprio cotidiano, mas nunca deixei de ler, de ouvir músicas as quais só eu sentia, a pintar quadros que ninguém entedia e a ter idéias que nasciam e morriam dentro de mim, e eu pensava que estava errada, lembrava da minha infância e da grande pessoa que tinha sumido de mim.
Te conheci, e algo em mim mudou para sempre, “te celebro mas não me escutas”, pois eu te escutei, tu me fez acordar para uma realidade que já estava em mim sufocada pela mediocridade que me rodeava, a mesma sensibilidade que agonizava em mim era tão visível em ti que tive medo, era uma dimensão muito maior que me esperava, não soube lidar com o que a tua presença causava em mim, parte de mim lutou muito para continuar medíocre, não identifiquei que a tua presença era providencial, não soube retribuir, e ao me dar conta não consegui expressar que tu tinhas sido tão importante assim
me senti tão mais forte e capaz, aquela criança que estava novamente acordou e nunca mais vou deixá-la adormecer, graças a ti. (Julho/2005)

Cartas não enviadas


Em ti me guardo, sou hóspede estranha, não fui convidada, te invado, já quis tanto, quase explodi de querer e jamais consegui nada.

Me lanço sem alternativas a luxúria vazia das madrugadas que perdem-se junto a mim, também me perco e nem me procuro mais.
Tenho apenas uma espinha atravessada em minha garganta, uma trava no olho, um calo no pé e muita saudade.
Saudade do que jamais poderei ter ou talvez a palavra certa seja despeito, inveja perturbada de quem terá teus olhares admirados e teu abraço cansado, e tua voz sussurrada, cantada, de quem poderá velar teu sono, tuas angústias e teus desejos.
E eu que nunca fui de me conformar, não durmo bem, mas consigo dormir, ainda que menos que antes, hoje, senti muito mais falta de ti, talvez só hoje e amanhã eu passe todo dia sem lembrar, como já aconteceu, mas hoje eu passei pelos lugares em que costumava te ver, repeti os caminhos que muitas vezes passei ansiosa para chegar até ti, lembrei da angústia desesperada, do prazer que dói de tão bom e da falta de apetite depois que o telefone tocava, até sonhei... antes e depois fiquei sem sonhar, com ninguém, por muito tempo.
Tu foste em minha vida aquele único, que se perde ou que nunca se terá, como uma mãe que não vê o primeiro passo do filho, por não ter um fio para prender, por faltar um centímetro para ultrapassar.
Meus fantasmas agora tomam conta de minha vida, gritam o quanto sou inútil, eles não tem alma, nem consciência, nem lado, vagam noite e dia, sugando o sangue, o suor e o tempo, que não volta, não têm dia claro, nem feriado, mal sabem quais seus próprios objetivos e muito menos ainda qual o sentido desta vida insana, mas me levam com eles.
Sou uma ingrata com aquilo tudo que é meu, pois nunca lutei para ter, só penso, mas sinto tão mal por pensar, queria pertencer realmente a minha própria vida, com coração e alma, só o corpo participa de tudo, e todo o resto vaga num vazio que nem sei, há muito que tudo se desintegrou, queria ser de tudo que é meu, mas não sou, talvez amanhã passe, hoje escrevo de algum lugar que criei, fora de mim e nem quero voltar.
Não me sinto à vontade com o que é meu, é sempre nessa hora que tenho saudade, saudade de ti, que sempre trazia minha alma para dentro de mim, meu lamento persiste, só queria que soubesse que ninguém jamais conseguiu provocar esta sensação em mim.

(08/04/05)

E então: Felicidade?

O despertador, as buzinas, os alarmes, vários sons e o rádio que busca uma estação com uma canção que parece dar um recado, o cantor do outro lado diz tudo que você queria ouvir de alguém que só oferece “ausências e cegueiras absolutas” como diria Cecília Meirelles, concluo comigo mesma que quem buscou a música, como um acalanto, fui eu, e não fui eu a escolhida por ela.

De um canto cabisbaixo do ser surge a vontade de olhar acima do horizonte, observo o sol, a poeira, o asfalto, os carros e as pessoas, que sempre me são muito complexas, cada um com a sua pressa: de viver, de chegar, de amar; a maioria com uma pressa inerente e hospitaleira que ficará lá até o enjôo, até o momento que as janelas da alma possam de fato ver o asfalto, os carros, as outras pessoas com suas cores e suas nuances mágicas e trágicas.

Vejo a felicidade em forma de amor, escancarada nas mãos dadas de uma mãe com seu filho ou  já velada pelo casal que passa, consumido pela rotina de quem faz presença, mas não está presente, uns passam distraídos, eu, e muita gente, somos esses os que esperam a felicidade que nunca vem: ou por descrédito ou por erro na interpretação do que representa a palavra no seu maior sentido.

Mas ainda posso ouvir o canto dos pássaros, que não foram e nunca serão superados por qualquer melodia humana, ainda me estarreço com a perfeição das formas individuais das folhas de cada árvore do meu jardim e ainda não entendo como muitas pessoas não enxergam que todo o teatro da humanidade é uma tentativa precária de imitar a natureza, com sua estética única e incomparável.

O sol aquece e ofusca meus olhos o que me dá um prazer insensato, estou viva e enxergo enfim, crianças brincam num campo de areia, com traves imaginárias de chinelo, com uma bola gasta e meio vazia, mas eu consigo sentir que ali sim deve estar a felicidade, é ela que espreita, sempre habilidosa em sair de uma hora para outra sem deixar bilhete.

Penso que se captasse esses momentos felizes em um pedaço da memória fosse mais fácil viver, mas para mim ela sempre foi uma sádica dissimulada, pois quando aparece faz com que eu pense que jamais irá me deixar, e os tolos de tudo, como eu, só entendem quando o vazio é a única companhia e o propósito não tem mais luz.

Quando ela vai ainda rouba os sonhos, como se alguém tivesse composto uma bela melodia e esta fosse atribuída a outro compositor e não houvesse possibilidade de comprovar a autoria, não seria essa Senhora tão sagaz a ponto de fazer com que acreditasse que ela existe, só para depois destruir a ilusão de que eu era algo maior do que de fato sou e sempre serei?

Dentro da limitação de não conseguir como criatura igualar-me ao Criador, me dispo de qualquer sensação de poder e me entrego a um cochilo na grama verde, consigo fazer parte da paisagem, não sou mais uma intrusa, estou em casa, contemplo as cores que nenhum grande artista conseguiu pintar, fica tudo claro para mim.

Enquanto penso, um grilo pula e se apropria do meu corpo, como se eu fosse extensão do mato, eu me assusto mais que ele, ele permanece, então percebo em êxtase, que descobri um grande segredo: minha existência, a do grilo, a do carteiro, a do empresário, exige que sejamos parte da paisagem, não importa onde estivermos, temos que estar dentro da melhor forma que nos for possível, só assim o tempo passa completo por nós, assim somos felizes: agarramos o momento pelos cabelos e trazemos ele para nós.

Queria que esse grilo pulasse por aí, gente por gente, a mostrar que não podemos ver tanta televisão a ponto de andar pela vida achando que tudo está atrás de uma tela, inatingível, e entender que estar dentro, e não na moldura dos acontecimentos é que faz valer a pena viver.

Ainda e por fim agradeço ao grilo, que mesmo podendo cantar, e não o fazendo, na imponência do seu silêncio, conseguiu me mostrar o que a sabedoria dos livros escritos por pessoas jamais assim me fizeram.

Agora “Narciso acha feio o que não é espelho...”

De repente tudo amanheceu uniforme... Todos os homens são morenos e tem a mesma estatura e eu sou invisível, tango sem bandoneon, Chico Buarque de olho castanho, Tom que não toca piano, Van Gogh é só um chato (com orelha) que fez desenho técnico e usa réguas ... as pessoas me falam de tinta de cabelo, legislações e outras drogas  e estou surda, tento ler os lábios mas nada mais tem uma forma definida, vejo só uma moldura embaralhada que me julga constantemente por tê-la ultrapassado... parece que quando abri os olhos estava sonhando, na minha frente sorriam uns olhos de jabuticaba que traziam a paz do avesso que nunca busquei na escuridão... lembrei de Narciso... tanto deslumbramento seria por me ver enfim refletida num par de olhos tão certos que deixariam a Capitu ofuscada?  Longínquos me trazem a tão temida sensação que os outros chamariam de esperança, prefiro dizer que é apenas vida e tudo que está fora desse olhar é passar do tempo, tudo que eu passo tem um pouco disso agora, um descompasso, como sentir calor e desejar o inverno e no frio buscar um cobertor quente... estou pra dentro e já não me julgo como sempre me obrigava, mas ainda estou num ensaio poético como um ator que espera um grande papel, adormeci para a inconsciência de viver dentro de padrões e sei que meu bilhete para uma grande viagem está no bolso, parte de tudo que vou usar para me despir e que só poderei ir se estiver nua.... ah... e a música como uma bela religião me lembra: “tanto mar...”

Teatro

A vida é uma constante troca de papéis, um dia amamos no outro somos amados, mas em descompasso, sombras do que somos é que nos formam, nada definido, ontem sentado na minha frente, um estranho, algum personagem que não conheci, mas na verdade eu que troquei de papel, vivo trocando, não consigo achar um ideal....