Era como uma cebola a verdade por dentro de ambos, tão escondida, só de tentar mexer na primeira camada os olhos já ardiam, então, desistiam-se.
Para remendar o tempero na vida cada um comprava um condimento industrializado, embalagem bonita, mas plastificada, cheia de recursos para abrir e servir sem precisar tocar e sentir, enfim, o que importa? Servia! Não tinha o sabor ideal, mas o que é tudo senão um meio termo, né?
Aquele contentamento de quem ganha meias e panetones no natal havia.
- É fácil demais, pensavam, essa ilusão do tempero pronto.
E o tempo é eterno, em suas cabeças sempre haveria um momento ideal para cortar a cebola, serem mortais e viverem a verdade, por agora, os olhos ardem demais para esses arroubos.
O ser e a vida moderna
Literatura e Poesia
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
domingo, 11 de maio de 2014
Tenha coragem. Não tenha esperança!
A necessidade de acreditarmos que
somos eternos e imortais destrói a nossa vida, nosso presente e o que poderíamos
fazer para sermos felizes agora.
Quanta gente age como se sempre
fosse ter tempo de fazer o que realmente precisa ser feito, para jogar a
hipocrisia de lado e viver com mais sinceridade o que tem vontade?
Quanta gente espera a hora certa,
como se houvesse sempre uma segunda chance, uma outra possibilidade de
reproduzir aquilo que sonhava?
É muito triste saber que dentro
da gente existe sempre essa esperança, que chega a ser quase uma certeza, de
que as decisões tem hora certa para acontecer, que haverá uma compensação pela
espera, que há uma justiça para aqueles que sentam no berço esplêndido da vontade
alheia.
Vejo por aí tanta gente sentada
nessa certeza, sem ousar duvidar que o tempo se esgota e que há um ponto final,
que às vezes a vida é esse presente mesmo e não haverá um futuro melhor, pois
no futuro a pessoa estará sempre pensando no futuro de depois no céu e depois
na vida eterna.
Esperando que um dia haja a “hora
certa” para viver, sem as mentiras e babaquices das convenções sociais, morais,
que nos limitam, que nos fazem acreditar em uma eternidade que, nós, podendo
ter o benefício da dúvida, acreditamos que exista, só para aliviar o vazio
dessa existência burra e acomodada no sem-sentido das coisas.
Concluo: ter esperança, além de
ser paralisante, é uma merda!
sábado, 3 de maio de 2014
A minha magem e semelhança
O que vemos quando nos olhamos no
espelho? Geralmente aquele estranho refletido é uma soma de todas as coisas que
tentamos fazer para agradar alguém, quase nunca é o que fazemos para agradar a
nós mesmos, enquanto o estranho fica ali, ficamos do outro lado, repetindo
velhas frases, andando em estradas que já sabemos o caminho.
Nem sempre percebemos à tempo,
antes de sofrer, que a vida que temos não é a nossa e sim um presente que
precisamos dar a alguém, para receber um reconhecimento em troca.
Vivemos nesse negócio eterno de
fazer algo para receber em troca e o tempo passageiro não perdoa nossas
escolhas para agradar, resultando em uma vida irreal, que atende os anseios da
sociedade, da família, mas não atende as frustrações que um dia aparecem.
O piloto automático justifica a
nossa conduta, pois é porque tem que ser a assim... até que um dia o outro,
esse material tão frágil e forte ao mesmo tempo se parte, milhares de
estilhaços para todos os lados, somos obrigados a juntar tudo e colar, quando
então a imagem toda embaralhada e imperfeita, mostra aquilo que seremos.
Isso leva tempo: quebrar, juntar,
colar e se olhar novamente, quanto mais tempo o espelho permanecer intacto,
menos sobra para que ele seja colado e possa refletir uma imagem real de quem
somos, tem gente que vive sempre com a eterna imagem do mesmo espelho que serve
a maioria, a esses a velhice reserva a pergunta: “então, isso era tudo?”
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
alguns minutos na minha cabeça...
Casa da minha mãe... nada dela, onde será que ela está, olho para o céu, que me parece extraordinário em tons de lilás e laranja... penso quantos tons seriam... impossível gravar, tiro uma foto, mando para os meus amigos no whatsapp... espero que eles compreendam... volto para dentro da casa, os gatos miam e o pote está vazio... olho no lugar de sempre e só tem ração do cachorro... fico em dúvida... mas diante da insistência coloco um pouco para cada um... eles não comem e continuam a miar... penso que minha mãe pode ter saído exatamente para comprar a ração... pego um dos gatos no colo... ele odeia... penso em comer algo... geladeira vazia... coloco um ovo para cozinhar... enquanto isso na TV a notícia da morte de Mandela... tento vincular a peculiaridade do céu como uma homenagem à ele... tento lembrar de alguma frase dele... nada vem... conto dinheiro... esqueço de lavar a mão e como o pão... penso que não é tão bom comer ovo mas ao menos economizo o valor do jantar... decido vir para minha casa... penso de novo onde minha mãe pode estar... de novo admiro o céu... entro no carro e penso que eu não posso ser parada em uma blitz pois não paguei o documento do carro... lamento todas as multas que terei de pagar... me culpo pela minha dupla irresponsabilidade... e penso em colocar esse item na minha lista de mudanças para o ano novo... passo em frente a uma igreja... penso que talvez as pessoas estejam felizes lá... e como me faz falta não ter fé... paro no sinal e lembro de uma piada politicamente incorreta que um amigo me contou um dia antes e começo a rir compulsivamente... um pouco adiante vejo um homem revirando o lixo e penso de novo no Mandela... tento lembrar a frase dele... não consigo... volto para o horizonte e vejo novamente que o céu hoje está fora do comum... tento tirar uma foto e dirigir ao mesmo tempo... não consigo e não tenho coragem de parar para tirar a foto... penso no homem que estava no lixeiro e em mim... fico aliviada por não ser ele e culpada por me sentir melhor que ele... penso se sou feliz... e comparo com as vezes que pensei que os outros pensavam que eu era feliz... lembro de uma amiga que sinto saudade mas que não tenho mais contato pois sou desajeitada para alimentar relações duradouras... olho um cara correndo e se exercitando e me sinto culpada por só ter vontade de comer batata frita e ver filmes românticos... penso que deveria ter estudado mais, trabalhado mais, feito mais exercícios... ainda tento lembrar da tal frase... penso que quando chegar em casa vou colocar no Google e acho rapidinho... próximo de casa paro perto de uma antiga fábrica da Ford, agora abandonada, penso no capitalismo e em como o espaço poderia ser aproveitado para qualquer coisa... gosto da arquitetura do local e até das pichações eu gosto um pouco... lembro que se eu tivesse de cadeira de rodas não poderia andar naquelas calçadas... chego em casa e em um canal está reprisando um show do aniversário do Mandela... paro um pouco para ver pois a música diz: “Give hope Joanna...” que bela música!... o Obama fez um víder em homenagem a ele também e enfim transmite a frase que eu estava tentando lembrar... algo como você precisa sonhar, acreditar e agir... e assim como o Obama pensei em agradecê-lo por alguma coisa, mas não me achei digna o bastante para ser hipócrita, só por hoje.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
“Se não servir, não tem problema, nós mandamos ajustar!”
O vestido era lindo e era modelo
único, mas infelizmente, não serviu. Tentei imaginar que ele ficaria bom mesmo
assim, depois ponderei: era muito caro, boa
parte do meu salário do mês eu pagaria em um vestido que definitivamente: não
era o meu número.
A vendedora comovida pela
comissão foi solícita e me disse: “Se não servir, não tem problema, nós
mandamos ajustar!”, então explicou que a costureira era ótima e que eu não
precisaria pagar pelo ajuste, seria uma cortesia. Fui cautelosa, agradeci a oferta,
mas imediatamente declinei do meu objeto de desejo.
Não sei porquê, mas arrumá-lo me
daria uma sensação ruim, como se tudo aquilo que precisasse ser arrumado assim,
desde o início, fosse virar mais um esqueleto para guardar no armário.
Depois pensei em todas as
relações que eu tentei fazer dar certo e de todas as nuances românticas que eu
dei a pessoas, apenas para que elas coubessem nos meus sonhos e ideais de
novela mexicana.
Desde o início sabemos quando uma
relação amorosa está fadada ao fracasso ou a doença mental, mesmo assim, nesse
caso acreditamos no argumento da vendedora do vestido: “Se não servir, não tem
problema, nós mandamos ajustar!”.
Acontece que começar remendando
alguém para que sirva ou tentando se adequar ao tamanho ideal é um esforço que
fazemos muito cedo, por impulso, sem nem ao certo saber se vale à pena, sem
conhecer o outro e pior, sem saber se a pessoa em questão está esperando qualquer
atitude.
Amamos vestidos, mas quando eles
caem bem, se for pra mandar ajustar, fica sem graça, deveríamos ser assim com nossos
relacionamentos: começou tendo que consertar, pense no quanto do seu tempo será
investido e se esse preço não comprometerá o orçamento mais importante que você
tem: sua vida!
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
O Ser e o Plástico
O SER E O PLÁSTICO
Parada no sinal, desconectada da mesmice do mundo exterior, absorta em pensamentos sóbrios, uma imagem da rua me desperta para fora: um mendigo (ou o que o meu preconceito julgou ser um mendigo) atravessa a faixa, puxando cuidadosamente por uma cordinha um cão feito de garrafas plásticas recicladas. Ele tenta não machucar seu amigo: as calçadas não são adaptadas, o que exige do homem um zelo maternal, a fim de mantê-lo sem nenhum amassado.
No primeiro momento, achei muita graça: “Que coisa mais insana”, pensei. Claro, como não seria diferente do mesmo pensamento que acomete todos aqueles que se julgam “normais” e que estão muito satisfeitos por fazerem parte dessa bolha fictícia do cotidiano.
Esse conforto de ser como todo mundo sempre me traz em seguida uma náusea, rejeição por fazer parte da moldura ideal e, consequentemente, uma fascinação curiosa pelo esquisito. Muitas vezes, já estive flertando com aquilo que choca as pessoas de uma forma geral.
Pensei melhor, então, sobre o mendigo e seu fiel cão de garrafas pet. Comparei essa cena a muitas que vejo, de pessoas que se julgam extremamente corretas e caçam a normalidade com garras, mente e cartões de crédito, para serem iguais a qualquer custo.
O que ele estava fazendo? Nada mais que buscando uma companhia por medo da solidão, se rodeando de algo sem vida, plástico, ao mesmo tempo que submisso e constante. Um cão de plástico não foge, não morde, não sai por aí atrás de um belo filé ou de uma cadelinha com pelo macio.
E como agem tantas vezes os “prudentes” e sãos? Buscam relações ilusórias para não morrer de tédio e superficiais para não ter que suportar o risco de uma perda após se entregarem a sentimentos mais profundos.
Nós e o mendigo já sacamos que envolver-se com as vidas alheias pode ser perigoso, mais até do que estarmos presos e esquecidos em um quarto revestido de espelhos. E quantos por aí preferem relações feitas de garrafas recicladas e uma natureza-morta como companheira para escapar de si e para não enfrentar o outro real?
O sinal abre. Lamento as calçadas mais uma vez... que não são adaptadas nem para o cachorro de garrafas pet do mendigo. Sigo! E minha revolta não dura mais que um suspiro!
Publicado em Jornal Anotícia em 28/11/2012
http://www.clicrbs.com.br/anoticia/jsp/default2.jspf=2&local=18&source=a3962727.xml&template=4191.dwt&edition=20880§ion=1186
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Circo de Horrores
Vejo em muitas faces, o punho cerrado, mesmo que as mãos estejam acenando para mim, no recado dos olhos apenas o rancor e o medo de que eu coma a última fatia do bolo. Falo comigo: - não tenho a intenção de ficar com os últimos pedaços de nada, por isso, não faço nada para desfazer nada... obedeço as regras: não dou comida aos animais no zoológico, tento me atrasar todos os dias na mesma hora, e na mesma hora também faço plano de um dia fazer coisas saudáveis, que é sempre no outro dia, em muitas horas eu acredito que as pessoas são mais felizes do que eu no facebook, tantas fotos de comida e eu só no pão com margarina, tantos amores perfeitos e sobre isso só conheço da flor, tantas viagens pelos quatro cantos e eu fazendo sempre o mesmo caminho... volto a ser racional e então acredito que acredito que todo mundo mente um pouco, inclusive para não parecer triste, nem pobre, nem mal amado... minto um pouco também, pelo bem que faz do mundo uma roda que gira... mas no fundo, sei que tanto faz o faz-de-conta, estamos sempre sozinhos e isso é verdade!
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