Ele vinha
de um encontro, também exaurido de esperas, os olhos dele tinham uma esperança
- ela viu isso- mas até então ele não tinha se encontrado. Entre as farpas que
a vida de um homem generoso o fazia engolir, todos os dias, e os seus amores
fracassados ele continuava acreditando no amor e nas pessoas mais do que em si
próprio...
Ela pensava
muito, e constatava dia após dia que a felicidade é algo que não existe, pois
esta palavra nada tinha de concreta e ela não queria mais viver de ilusões. Vivia
desconcertada entre o regime de horas que era obrigada a trabalhar - trabalhava
muito e nos últimos dias este era o seu único objetivo- mesmo que nem tivesse ideia de que agia assim
porque nada de mais interessante acontecia há muito em sua vida....
Ele então
era músico durante a noite, e sonhava em viver de notas musicais e melodias,
escrevia letras e fazia arranjos, que não tinha coragem de mostrar, sempre
esperava algo mais, uma letra melhor, uma melodia mais original, enquanto isso
trabalhava como professor, dava aulas de história, sonhava em ser herói, como
tantos daqueles que povoavam seu imaginário de artista...
Ela amava
literatura e pintura, as palavras e as cores é que mandavam na sua alma, no
meio de tantas pessoas que talvez quisessem ser um pouco como ela e outros que ansiavam
por atenção, ela sempre se sentiu sozinha, trabalhava tirando cópias durante o dia
e estudava para ser “alguém” (já que o mundo classifica assim as pessoas)...
Ele saia de
casa todos os dias com esperança, ela – a esperança- saia pelos olhos e tomava
todo ambiente, mas a maioria das pessoas não a reconhecia, já que ninguém tem
mais tempo para olhar nos olhos dos outros, ele tinha 33. Casado e divorciado
há dois anos, se achava um fracassado no romance, pois sempre que foi amado não
pôde amar, por não entender muito bem esse tipo de amor que sufoca o que se é
para esperar em troca algo que não se pode dar.
Ela nunca
tinha sido amada, e depois de fazer 25 é que tinha visto que tudo que tinha
ouvido dos homens era por interesse no seu corpo e que ninguém, absolutamente
ninguém até hoje a conheceu, fora o seu corpo todo resto estava intacto,
inexplorado, ninguém tinha chegado nem perto da sua alma. Ela se sentia culpada,
tinha medo de perder o controle por isso não se entregava a ninguém...
Ele já
tinha tentado viver o amor, teve vários romances, mas sentia que por uma razão
que desconhecia dizia e os outros entendiam o contrário, assim nunca tinha
amado ninguém porque ninguém sabia ver nele o que ele realmente era e sim
interpretações fantasiosas daquilo que queriam que ele fosse.
Ela já
tinha desistido desse amor (ou acreditava que tinha) e entre conversar com
Machado de Assis e ouvir Chico Buarque, ela pensava em criar alternativas para
que a vida afora não a entediasse tanto, não sabia se se isolava do mundo com
as tintas e os livros ou se enfrentava a hipocrisia de viver em sociedade...
Ele ainda
pensava em amar, queria ser descoberto, queria perder o ar e sair do chão, mas
se achava desastrado e azarado com as mulheres, queria uma mulher especial, mas
tinha uma capacidade enorme de atrair mulheres comuns, daquelas que fazem de
revistas de moda seu catecismo...
Ela estava
com medo, tão jovem e já não tinha mais certeza de seus objetivos, não sonhava
em ser mãe e nem ser uma grande profissional, estava estagnada em um mundo que
tinha criado dentro dela e que não conseguia sair...
Ele queria
alguém sensível, com quem pudesse conversar sobre música e sobre livros sem
parecer chato ou entediante, alguém que o entendesse até no silêncio, alguém
para proteger e para amar sem se preocupar com fórmulas de conquista e nem ter
que premeditar palavras e comentários...
Ela pensava
que só se apaixonaria por alguém que fosse simples e forte, que dominasse a
situação sem dizer nada, alguém que a levasse com ele para a paz, com o qual
não precisasse ter que vestir uma máscara de super-mulher, alguém que visse sua
fragilidade e quisesse transformá-la em amor...
Os dois
queriam um ao outro, por toda a vida.
Nunca tinha
a chance de se encontrarem, sempre se atrasavam e driblavam os planos do
destino e ele era adiado, ela mergulhada em pensamentos e ele perdido no espaço
dele mesmo, se cruzavam todos os dias mas não se viam até que...
Sentaram-se
lado a lado para esperar o trem, ele chegou primeiro e pode vê-la caminhando na
sua direção, a achou muito atraente, olhou seu corpo e seu rosto, seus cabelos
compridos e pensou que talvez fosse ela, mas pensou melhor e imaginou que ela
já poderia ser casada, ou comprometida.
Ela só
agora, depois de sentar o notou, olhou que ele parecia sorrir para seus
próprios pensamentos, e viu seus olhos, olhos vivos e honestos, que brilhavam,
e soube que ele estava pensando nela, ela pensou em sorrir para ele, mas ficou
com medo de parecer louca.
Ele olhava
para frente, mas sorria com o canto da boca.
Ali, os
dois dialogaram durante minutos, sem que uma palavra ousasse sair das bocas e
foram interrompidos pelo trem que acabara de chegar. Entraram então: ele
primeiro. E ela com esperança que ele
dissesse algo parou ao lado dele. Dois caminhos prestes a ser uma rua.
Quando um
olhava, o outro desviava os olhos em uma valsa antiga que aqueles olhos
cúmplices insistiam em fazer. Ele pensava em falar. Ela esperava que ele
falaria. Ele não teve coragem. Ela ficou com uma pontinha de raiva.
Ele então
perguntou se ela não gostaria de sentar. Ela como já não esperava mais nenhuma
atitude se surpreendeu e disse que não, pois já estava perto de casa. Ele então
sentou-se, e ela desceu, e sorriu para ele do lado de fora.
Ela teve um
lampejo de filme romântico e o imaginou e descer e correr até ela para dizer tudo
que aqueles olhos carregavam de bom.
Ela se
decepcionou e esqueceu aqueles minutos que a fizeram pensar no amor.
Ele do lado
de dentro, pensou em sair, em correr para ela, mas se achou ridículo por pensar
assim, nem a conhecia, ela poderia rir dele.
Cada um
seguiu seu caminho...
Ela foi
promovida. Mudou de cidade. Entre um caso e outro continua sozinha e se
sentindo incompleta, sofrendo com a insensibilidade das pessoas e pensando que esse
amor talvez seja mesmo ilusão de poeta...
Ele se
casou por pura convenção social e teve um filho, sua solidão serviu para que
ele ficasse cada vez mais inspirado, mas continua sem mostrar sua música para
não parecer sonhador. Vive de algumas aulas de música, mas está fazendo um
curso técnico, a pedido da esposa, assim pode ter um emprego com carteira
assinada e dar uma vida mais confortável para sua família.

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