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sábado, 17 de novembro de 2012

Um grande amor de 10 minutos

Ela vinha do trabalho distraída e cansada: por ela e pelo mundo. Cheia da vida tão comum: ela se achava tão especial! Mas ultimamente via no resultado do trabalho, no cotidiano e no amor, que era mais igual aos outros do que até então tentava parecer ser. No fundo sempre soube...

Ele vinha de um encontro, também exaurido de esperas, os olhos dele tinham uma esperança - ela viu isso- mas até então ele não tinha se encontrado. Entre as farpas que a vida de um homem generoso o fazia engolir, todos os dias, e os seus amores fracassados ele continuava acreditando no amor e nas pessoas mais do que em si próprio...

Ela pensava muito, e constatava dia após dia que a felicidade é algo que não existe, pois esta palavra nada tinha de concreta e ela não queria mais viver de ilusões. Vivia desconcertada entre o regime de horas que era obrigada a trabalhar - trabalhava muito e nos últimos dias este era o seu único objetivo-  mesmo que nem tivesse ideia de que agia assim porque nada de mais interessante acontecia há muito em sua vida....

Ele então era músico durante a noite, e sonhava em viver de notas musicais e melodias, escrevia letras e fazia arranjos, que não tinha coragem de mostrar, sempre esperava algo mais, uma letra melhor, uma melodia mais original, enquanto isso trabalhava como professor, dava aulas de história, sonhava em ser herói, como tantos daqueles que povoavam seu imaginário de artista...

Ela amava literatura e pintura, as palavras e as cores é que mandavam na sua alma, no meio de tantas pessoas que talvez quisessem ser um pouco como ela e outros que ansiavam por atenção, ela sempre se sentiu sozinha, trabalhava tirando cópias durante o dia e estudava para ser “alguém” (já que o mundo classifica assim as pessoas)...

Ele saia de casa todos os dias com esperança, ela – a esperança- saia pelos olhos e tomava todo ambiente, mas a maioria das pessoas não a reconhecia, já que ninguém tem mais tempo para olhar nos olhos dos outros, ele tinha 33. Casado e divorciado há dois anos, se achava um fracassado no romance, pois sempre que foi amado não pôde amar, por não entender muito bem esse tipo de amor que sufoca o que se é para esperar em troca algo que não se pode dar.

Ela nunca tinha sido amada, e depois de fazer 25 é que tinha visto que tudo que tinha ouvido dos homens era por interesse no seu corpo e que ninguém, absolutamente ninguém até hoje a conheceu, fora o seu corpo todo resto estava intacto, inexplorado, ninguém tinha chegado nem perto da sua alma. Ela se sentia culpada, tinha medo de perder o controle por isso não se entregava a ninguém...

Ele já tinha tentado viver o amor, teve vários romances, mas sentia que por uma razão que desconhecia dizia e os outros entendiam o contrário, assim nunca tinha amado ninguém porque ninguém sabia ver nele o que ele realmente era e sim interpretações fantasiosas daquilo que queriam que ele fosse.

Ela já tinha desistido desse amor (ou acreditava que tinha) e entre conversar com Machado de Assis e ouvir Chico Buarque, ela pensava em criar alternativas para que a vida afora não a entediasse tanto, não sabia se se isolava do mundo com as tintas e os livros ou se enfrentava a hipocrisia de viver em sociedade...

Ele ainda pensava em amar, queria ser descoberto, queria perder o ar e sair do chão, mas se achava desastrado e azarado com as mulheres, queria uma mulher especial, mas tinha uma capacidade enorme de atrair mulheres comuns, daquelas que fazem de revistas de moda seu catecismo...

Ela estava com medo, tão jovem e já não tinha mais certeza de seus objetivos, não sonhava em ser mãe e nem ser uma grande profissional, estava estagnada em um mundo que tinha criado dentro dela e que não conseguia sair...

Ele queria alguém sensível, com quem pudesse conversar sobre música e sobre livros sem parecer chato ou entediante, alguém que o entendesse até no silêncio, alguém para proteger e para amar sem se preocupar com fórmulas de conquista e nem ter que premeditar palavras e comentários...

Ela pensava que só se apaixonaria por alguém que fosse simples e forte, que dominasse a situação sem dizer nada, alguém que a levasse com ele para a paz, com o qual não precisasse ter que vestir uma máscara de super-mulher, alguém que visse sua fragilidade e quisesse transformá-la em amor...

Os dois queriam um ao outro, por toda a vida.

Nunca tinha a chance de se encontrarem, sempre se atrasavam e driblavam os planos do destino e ele era adiado, ela mergulhada em pensamentos e ele perdido no espaço dele mesmo, se cruzavam todos os dias mas não se viam até que...

Sentaram-se lado a lado para esperar o trem, ele chegou primeiro e pode vê-la caminhando na sua direção, a achou muito atraente, olhou seu corpo e seu rosto, seus cabelos compridos e pensou que talvez fosse ela, mas pensou melhor e imaginou que ela já poderia ser casada, ou comprometida.

Ela só agora, depois de sentar o notou, olhou que ele parecia sorrir para seus próprios pensamentos, e viu seus olhos, olhos vivos e honestos, que brilhavam, e soube que ele estava pensando nela, ela pensou em sorrir para ele, mas ficou com medo de parecer louca.

Ele olhava para frente, mas sorria com o canto da boca.

Ali, os dois dialogaram durante minutos, sem que uma palavra ousasse sair das bocas e foram interrompidos pelo trem que acabara de chegar. Entraram então: ele primeiro.  E ela com esperança que ele dissesse algo parou ao lado dele. Dois caminhos prestes a ser uma rua.

Quando um olhava, o outro desviava os olhos em uma valsa antiga que aqueles olhos cúmplices insistiam em fazer. Ele pensava em falar. Ela esperava que ele falaria. Ele não teve coragem. Ela ficou com uma pontinha de raiva.

Ele então perguntou se ela não gostaria de sentar. Ela como já não esperava mais nenhuma atitude se surpreendeu e disse que não, pois já estava perto de casa. Ele então sentou-se, e ela desceu, e sorriu para ele do lado de fora.

Ela teve um lampejo de filme romântico e o imaginou e descer e correr até ela para dizer tudo que aqueles olhos carregavam de bom.

Ela se decepcionou e esqueceu aqueles minutos que a fizeram pensar no amor.

Ele do lado de dentro, pensou em sair, em correr para ela, mas se achou ridículo por pensar assim, nem a conhecia, ela poderia rir dele.

Cada um seguiu seu caminho...

Ela foi promovida. Mudou de cidade. Entre um caso e outro continua sozinha e se sentindo incompleta, sofrendo com a insensibilidade das pessoas e pensando que esse amor talvez seja mesmo ilusão de poeta...

Ele se casou por pura convenção social e teve um filho, sua solidão serviu para que ele ficasse cada vez mais inspirado, mas continua sem mostrar sua música para não parecer sonhador. Vive de algumas aulas de música, mas está fazendo um curso técnico, a pedido da esposa, assim pode ter um emprego com carteira assinada e dar uma vida mais confortável para sua família.

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