De um local inóspito dentro de mim, “quatro paredes sólidas” e cinzas, uma pequena janela com grades, de agradável a leve brisa da alvorada que me envolve; dia daqueles em que penei por tua ausência; em Setembro, mês que acarinha com um ósculo de vento e um cálido abraço, num ano de grandes mergulhos ao fundo de mim.
Escrevo-te pelo descompasso do meu coração, que já é audível em som com velocidade da luz.... ora doido, ora desgraçado e bem menos contente, músculo que nada mais é - para os “civilizados” como nós- : o rádio transmissor da Divina Providência.
A razão por mais que lute contra, não consegue lidar com as perturbações dele, este insano tomou conta de mim e traiçoeiro controla meus anseios, desperto por ti, quer vingar-se do tempo que permaneceu mudo, já que eu furei com uma agulha sua língua, quando ele ainda era bem pequeno. O reneguei a ponto de suprimir seus conselhos.
E não me julgues tu, apenas desejei um dia ser igual a turba de idiotas que temem amar o perdido - em algum momento de nossa existência atípica, nós portadores da felicidade realista, em meio a tanta mediocridade acabamos nos questionando se há algo de errado e, ou por medo, descrédito, até por indignação colocamos um pé na rotina burra dos que trabalham, comem, dormem, falam, amam e vivem para serem iguais aos outros, que horror!-.
Ele, il corazòn, tem gritado muito, após perder a fé em ti, o coitado quer espalhar-se pela atmosfera, como o andrajo que se tornou por conseguinte minha imagem que mais parece uma marca d’água e em nada retrata a franca beleza de antes.
Pois tu, anjo falsificado de sedução, libertou-o deste cárcere privado e involuntário, curou-o a base de olhares serenos, comentários seguros, melodias e sons coloridos, como milagre de Santo fez com que ele despertasse e conseguisse falar tão alto aqui dentro que todas as vozes remanescentes calaram-se.
Malfadado destino para o pobre, já que de tanto querer o teu sem ter de ti o mesmo afeto deixou-se degredar para o país dos corações bandidos.
Quer ele aprender na marra o significado do amor - “grande palavra, faiscante e misteriosa, de onde a felicidade escorre como a água de uma taça muito cheia”-, me acusa, primeiro por tê-lo deixado calado, em seguida por deixar-lhe a tua mercê.
Histérico, passa horas repetindo que uma vez perdido a língua já tinha se acostumado à submissão, quer recuperar o que perdeu, quer dizer-me tudo que não pôde, tomou posse dos meus seis sentidos, de tão revoltado que está não ouve mais, ensurdeceu, entende tudo errado.
E tu, tirano, sumiste! Levaste contigo meu exército de sensações, que são teus criados, moro de aluguel dentro de mim, conquistaste parte por parte até chegar ao coração, que rendeu-se enfeitiçado com teu canto.
Me digas o que faço com este louco independente, que hoje só adormeceu por algum tempo depois de absorver três livros do Machado e sete Cd´s do Chico Buarque para suprir a falta que tu fazes a ele.
Me pergunto, te pergunto: quanto tempo terei que remediar? Responda-me tu: suponho eu que tua presença já deve ter enlouquecido muitos outros corações sem retorno vida afora, o que fazes com estes trapos? O que eu digo a ele quando o desvairado despertar?
Temo por ti, ele me domina, toda tua integridade está ameaçada e toda minha também, ele quer atingir-te. Não estou ameaçando-te, quem te fala aqui é a parte passível de mim... mas daqui a pouco ela perde o domínio... e...

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