À ti ... que tem sido minha melhor companhia: quando sim, minha alegria; quando não, minha inspiração...
....letras, melodias, declarações, adereços, gritos, euforia, tesão... sempre gostei de usar palavras para representar sensações e por ti quantas obras de arte fui capaz de fazer?!
Compus uma ópera, um blues, um samba-canção, uma sonata, e de tão belas, jamais as tornei públicas, num acesso de puro egoísmo, para que ninguém compartilhasse da mesma sensação...
Dancei sozinha, salsa, tango, valsa, no meio da pista lotada, toda vez que soube que em algum lugar do salão estavam teus olhos a me vigiar.
Escrevi um vasto acervo de poesia e prosa, textos e composições, objeto de inveja dos imortais das academias de letras, objeto da crítica positiva dos maiores entendedores de literatura do mundo e os assombrei todos, ao declarar aos quatro cantos que a única intenção daquela nobre obra era a tua admiração e julgamento, e que outras opiniões eram irrelevantes e não alteravam nenhum centímetro do meu estado de espírito, exceto a tua ...
E como nada adiantou para te conscientizar da dimensão e da magnitude dos meus sentimentos, como último suspiro do ser que se esforça para não perder a vida, percorri parlatórios e proferi os mais sublimes discursos já ouvidos, transcendi o lógico ao conseguir convencer à todos os povos um ideal único, a minha súplica por ti suscitou lutas pelo amor onde alcançou o som de minha voz e se propagou mais que praga, o mundo então perplexo de amor jamais foi o mesmo.
Como uma “pazzia d´amore” o “Leonismo Fantástico”, meu movimento para ti, tornou-se o catecismo do século, uma bibliografia imprescindível para filósofos, intelectuais, doutores e monges e despertou ainda a ânsia de leitura daqueles miseráveis analfabetos de senso, apenas para que acreditasses que eu era capaz de conquistar o mundo todo para te conquistar...
Sem sequer merecer alcançar a altura do teu peito, o que eu tinha eram tuas etéreas lembranças, sem pensar parti para contravenção me tornei bandida, ladra, louca, maldita e temida até pelo mais criminoso e poderoso dos malfeitores, fui capaz de atrocidades para provar o contrário do que a minha alma sonhadora sempre previu, que sem o amor do mais desejado dos seres não há luz, nem paz, nem melodia, não há inspiração, desmistificando e blasfemando minha própria obra.
Todo povo, assim como eu, também desistiu de ser, e eu numa busca incessante de ti, apoiada pelas forças do mal - que sempre se dispõem nestes momentos - te encontrei, e num rompante de ânsia, volúpia, angústia, te engoli inteiro, imaginei que assim nenhum outro ser seria capaz de conviver neste mundo com a tua alma através do corpo que eu acabava de engolir, fiquei cheia de ti, até que a tua alma conseguiu fugir pelo escuro dos meus olhos, ainda tinha o teu corpo inteiro, parte minha, mas para nada adiantava, já que tua alma continuou livre e como dádiva reservada aos grandes, ganhastes asas e voastes longe, e eu triste, feia de tão gorda, e não menos desacreditada pelo povo... morri... de indigestão...
Minha obra literária após minha lamentável morte serviu de base para todos os movimentos contemporâneos, e eu tornei-me um ícone de toda uma geração.
Tu cansaste de voar com tuas infindas asas, quiseste ser mortal novamente, procuraste uma alma sem expressão, um ente despersonalizado que fosse fisicamente parecido contigo, encontraste um advogado positivista, confrontando-te com aquela fraca alma de positivista tua nobreza de espírito venceu logo e os teus vôos pela terra ajudaram a te tornares o melhor advogado pois conhecias a fundo a vida que códigos e constituições jamais ensinaram aos outros infelizes que ainda acreditam que tudo de importante já foi escrito e deve ser seguido ipsis litteris.
Resolveste pela primeira vez ler com coração a minha obra literária, e naquele momento quiseste com fúria e arrependimento um momento para nós, chamaste meu nome, decoraste minhas palavras e como advogado reivindicaste para ti direitos autorais sobre a obra inspirada na tua alma, provaste com argumentos irrefutáveis as tuas razões, venceste a causa e passaste a vida a gastar aos tufos o meu dinheiro.
Quiseste ser escritor, já que não suportaste continuar vivendo no meio bitolado das leis, inconscientemente tentaste me superar mas jamais chegaste aos meus pés por não conseguires encontrar em outro ser a inspiração que encontrei em ti e que tu encontrarias apenas em mim se tivesses “ouvido de ouvir e olhos de enxergar”.

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