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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

E então: Felicidade?

O despertador, as buzinas, os alarmes, vários sons e o rádio que busca uma estação com uma canção que parece dar um recado, o cantor do outro lado diz tudo que você queria ouvir de alguém que só oferece “ausências e cegueiras absolutas” como diria Cecília Meirelles, concluo comigo mesma que quem buscou a música, como um acalanto, fui eu, e não fui eu a escolhida por ela.

De um canto cabisbaixo do ser surge a vontade de olhar acima do horizonte, observo o sol, a poeira, o asfalto, os carros e as pessoas, que sempre me são muito complexas, cada um com a sua pressa: de viver, de chegar, de amar; a maioria com uma pressa inerente e hospitaleira que ficará lá até o enjôo, até o momento que as janelas da alma possam de fato ver o asfalto, os carros, as outras pessoas com suas cores e suas nuances mágicas e trágicas.

Vejo a felicidade em forma de amor, escancarada nas mãos dadas de uma mãe com seu filho ou  já velada pelo casal que passa, consumido pela rotina de quem faz presença, mas não está presente, uns passam distraídos, eu, e muita gente, somos esses os que esperam a felicidade que nunca vem: ou por descrédito ou por erro na interpretação do que representa a palavra no seu maior sentido.

Mas ainda posso ouvir o canto dos pássaros, que não foram e nunca serão superados por qualquer melodia humana, ainda me estarreço com a perfeição das formas individuais das folhas de cada árvore do meu jardim e ainda não entendo como muitas pessoas não enxergam que todo o teatro da humanidade é uma tentativa precária de imitar a natureza, com sua estética única e incomparável.

O sol aquece e ofusca meus olhos o que me dá um prazer insensato, estou viva e enxergo enfim, crianças brincam num campo de areia, com traves imaginárias de chinelo, com uma bola gasta e meio vazia, mas eu consigo sentir que ali sim deve estar a felicidade, é ela que espreita, sempre habilidosa em sair de uma hora para outra sem deixar bilhete.

Penso que se captasse esses momentos felizes em um pedaço da memória fosse mais fácil viver, mas para mim ela sempre foi uma sádica dissimulada, pois quando aparece faz com que eu pense que jamais irá me deixar, e os tolos de tudo, como eu, só entendem quando o vazio é a única companhia e o propósito não tem mais luz.

Quando ela vai ainda rouba os sonhos, como se alguém tivesse composto uma bela melodia e esta fosse atribuída a outro compositor e não houvesse possibilidade de comprovar a autoria, não seria essa Senhora tão sagaz a ponto de fazer com que acreditasse que ela existe, só para depois destruir a ilusão de que eu era algo maior do que de fato sou e sempre serei?

Dentro da limitação de não conseguir como criatura igualar-me ao Criador, me dispo de qualquer sensação de poder e me entrego a um cochilo na grama verde, consigo fazer parte da paisagem, não sou mais uma intrusa, estou em casa, contemplo as cores que nenhum grande artista conseguiu pintar, fica tudo claro para mim.

Enquanto penso, um grilo pula e se apropria do meu corpo, como se eu fosse extensão do mato, eu me assusto mais que ele, ele permanece, então percebo em êxtase, que descobri um grande segredo: minha existência, a do grilo, a do carteiro, a do empresário, exige que sejamos parte da paisagem, não importa onde estivermos, temos que estar dentro da melhor forma que nos for possível, só assim o tempo passa completo por nós, assim somos felizes: agarramos o momento pelos cabelos e trazemos ele para nós.

Queria que esse grilo pulasse por aí, gente por gente, a mostrar que não podemos ver tanta televisão a ponto de andar pela vida achando que tudo está atrás de uma tela, inatingível, e entender que estar dentro, e não na moldura dos acontecimentos é que faz valer a pena viver.

Ainda e por fim agradeço ao grilo, que mesmo podendo cantar, e não o fazendo, na imponência do seu silêncio, conseguiu me mostrar o que a sabedoria dos livros escritos por pessoas jamais assim me fizeram.

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