De um canto cabisbaixo do ser
surge a vontade de olhar acima do horizonte, observo o sol, a poeira, o asfalto,
os carros e as pessoas, que sempre me são muito complexas, cada um com a sua
pressa: de viver, de chegar, de amar; a maioria com uma pressa inerente e
hospitaleira que ficará lá até o enjôo, até o momento que as janelas da alma
possam de fato ver o asfalto, os carros, as outras pessoas com suas cores e
suas nuances mágicas e trágicas.
Vejo a felicidade em forma de amor,
escancarada nas mãos dadas de uma mãe com seu filho ou já velada pelo casal que passa, consumido
pela rotina de quem faz presença, mas não está presente, uns passam distraídos,
eu, e muita gente, somos esses os que esperam a felicidade que nunca vem: ou
por descrédito ou por erro na interpretação do que representa a palavra no seu
maior sentido.
Mas ainda posso ouvir o canto dos
pássaros, que não foram e nunca serão superados por qualquer melodia humana,
ainda me estarreço com a perfeição das formas individuais das folhas de cada
árvore do meu jardim e ainda não entendo como muitas pessoas não enxergam que
todo o teatro da humanidade é uma tentativa precária de imitar a natureza, com
sua estética única e incomparável.
O sol aquece e ofusca meus olhos
o que me dá um prazer insensato, estou viva e enxergo enfim, crianças brincam
num campo de areia, com traves imaginárias de chinelo, com uma bola gasta e
meio vazia, mas eu consigo sentir que ali sim deve estar a felicidade, é ela
que espreita, sempre habilidosa em sair de uma hora para outra sem deixar
bilhete.
Penso que se captasse esses
momentos felizes em um pedaço da memória fosse mais fácil viver, mas para mim
ela sempre foi uma sádica dissimulada, pois quando aparece faz com que eu pense
que jamais irá me deixar, e os tolos de tudo, como eu, só entendem quando o
vazio é a única companhia e o propósito não tem mais luz.
Quando ela vai ainda rouba os
sonhos, como se alguém tivesse composto uma bela melodia e esta fosse atribuída
a outro compositor e não houvesse possibilidade de comprovar a autoria, não
seria essa Senhora tão sagaz a ponto de fazer com que acreditasse que ela
existe, só para depois destruir a ilusão de que eu era algo maior do que de fato
sou e sempre serei?
Dentro da limitação de não
conseguir como criatura igualar-me ao Criador, me dispo de qualquer sensação de
poder e me entrego a um cochilo na grama verde, consigo fazer parte da
paisagem, não sou mais uma intrusa, estou em casa, contemplo as cores que nenhum
grande artista conseguiu pintar, fica tudo claro para mim.
Enquanto penso, um grilo pula e
se apropria do meu corpo, como se eu fosse extensão do mato, eu me assusto mais
que ele, ele permanece, então percebo em êxtase, que descobri um grande
segredo: minha existência, a do grilo, a do carteiro, a do empresário, exige
que sejamos parte da paisagem, não importa onde estivermos, temos que estar
dentro da melhor forma que nos for possível, só assim o tempo passa completo
por nós, assim somos felizes: agarramos o momento pelos cabelos e trazemos ele
para nós.
Queria que esse grilo pulasse por
aí, gente por gente, a mostrar que não podemos ver tanta televisão a ponto de
andar pela vida achando que tudo está atrás de uma tela, inatingível, e entender
que estar dentro, e não na moldura dos acontecimentos é que faz valer a pena viver.
Ainda e por fim agradeço ao
grilo, que mesmo podendo cantar, e não o fazendo, na imponência do seu
silêncio, conseguiu me mostrar o que a sabedoria dos livros escritos por
pessoas jamais assim me fizeram.

Nenhum comentário:
Postar um comentário