Em ti me guardo, sou hóspede estranha, não fui convidada, te invado, já quis tanto, quase explodi de querer e jamais consegui nada.
Me lanço sem alternativas a luxúria vazia das madrugadas que perdem-se junto a mim, também me perco e nem me procuro mais.
Tenho apenas uma espinha atravessada em minha garganta, uma trava no olho, um calo no pé e muita saudade.
Saudade do que jamais poderei ter ou talvez a palavra certa seja despeito, inveja perturbada de quem terá teus olhares admirados e teu abraço cansado, e tua voz sussurrada, cantada, de quem poderá velar teu sono, tuas angústias e teus desejos.
E eu que nunca fui de me conformar, não durmo bem, mas consigo dormir, ainda que menos que antes, hoje, senti muito mais falta de ti, talvez só hoje e amanhã eu passe todo dia sem lembrar, como já aconteceu, mas hoje eu passei pelos lugares em que costumava te ver, repeti os caminhos que muitas vezes passei ansiosa para chegar até ti, lembrei da angústia desesperada, do prazer que dói de tão bom e da falta de apetite depois que o telefone tocava, até sonhei... antes e depois fiquei sem sonhar, com ninguém, por muito tempo.
Tu foste em minha vida aquele único, que se perde ou que nunca se terá, como uma mãe que não vê o primeiro passo do filho, por não ter um fio para prender, por faltar um centímetro para ultrapassar.
Meus fantasmas agora tomam conta de minha vida, gritam o quanto sou inútil, eles não tem alma, nem consciência, nem lado, vagam noite e dia, sugando o sangue, o suor e o tempo, que não volta, não têm dia claro, nem feriado, mal sabem quais seus próprios objetivos e muito menos ainda qual o sentido desta vida insana, mas me levam com eles.
Sou uma ingrata com aquilo tudo que é meu, pois nunca lutei para ter, só penso, mas sinto tão mal por pensar, queria pertencer realmente a minha própria vida, com coração e alma, só o corpo participa de tudo, e todo o resto vaga num vazio que nem sei, há muito que tudo se desintegrou, queria ser de tudo que é meu, mas não sou, talvez amanhã passe, hoje escrevo de algum lugar que criei, fora de mim e nem quero voltar.
Não me sinto à vontade com o que é meu, é sempre nessa hora que tenho saudade, saudade de ti, que sempre trazia minha alma para dentro de mim, meu lamento persiste, só queria que soubesse que ninguém jamais conseguiu provocar esta sensação em mim.
(08/04/05)

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